Ainhoa Rodríguez: “Os festivais de cinema deviam apostar mais na transgressão”

“Destello Bravío” está disponível no Festival Artekino

(Fotos: Divulgação)

Estreado em Roterdão no início do ano, Menção Honrosa do júri do Fest Novos Cineastas | Novos Realizadores em outubro, e agora presente no catálogo da Filmin, “Destello Bravío” chega ao Cine Fiesta com as ganas de conquistar a audiência.

Primeira longa-metragem de Ainhoa Rodríguez, o filme transporta-nos para uma pequena povoação presa entre as velhas tradições patriarcais e um novo mundo globalizado, sendo preciso seguir em frente e inventar novas formas de pensar. “Uma das ideias que veio de um projeto anterior, que nunca se concretizou, para este filme foi tentar recuperar a infância perdida, a dor por essa perda, e como fabulamos para regressar a esses tempos de forma a encontrar um sentido para a nossa existência”, explicou a cineasta ao C7nema esta semana. “E nessa fabulação surgem as questões que vemos no filme. O catolicismo, pois existe uma dimensão católica, exotérica e agnóstica, mais infantil ou mais fantástica. Quando falas de um povo tens de abordar estes aspetos que são essenciais. A essência do filme é a busca da magia e como a sociedade o faz para encontrar sentido para existência. Existe um lado no filme muito existencial”.

Destello Bravío

À frente do elenco desta produção encontramos não-atores, todos eles habitantes do povoado onde Ainhoa passou 9 meses a trabalhar, os quais também a inspiraram para a aprumada estética que aplicou no seu filme: “A noite caia as 6 da tarde no inverno e as janelas fechavam-se. Dava quase medo. Além disso, era uma zona muito escura, pouco iluminada. E as luzes que existiam davam também uma espécie de atmosfera de um povoado doente. Como o filme move-se entre o quotidiano naturalista, aborrecido e tradicional, e a fantasia ao cair da noite, o realismo mágico, o terror, suspense e o esotérico, era preciso uma dualidade também na cor (…) Muitas vezes vês o início e o encerrar de uma história, mas outras vezes partes do final e imaginas como terá sido o início”. 

A experiência com os não-atores foi muito frutuosa, não só para eles como para Ainhoa, que devido ao seu método, de ter um guião completamente fechado e aberto ao mesmo tempo, tem consciência que levou aos limites a equipa de filmagens: “Gosto de ter uma metodologia aberta e esperar pelo que vem. (…) Nunca lhes dava o texto. Esperava o que diziam e guardava o texto para mim. Chegamos a encerrar o guião com diálogos. A equipa esteve prestes a assassinar-me.

Ainhoa Rodríguez

Mas no final das contas, o resultado agradou a todos, em particular aos não-atores que viram-se reconhecidos e imortalizados no grande ecrã. “A primeira vez que eles  viram o filme foi um grupo de 6 no Festival de Málaga, que tinha muita imprensa, marketing e tapete vermelho. Era louco. Mas elas passaram o filme todo a chorar (risos), emocionadas. No final abraçamo-nos e foi muito emotivo. Quando mostramos na povoação, não só a gente que  surge na tela, mas a todos os outros que ajudaram, foi também muito emotivo. Quando acabou a sessão disseram-me: ‘não sei se entendemos muito bem, mas foi uma viagem poética e alucinante. Acima de tudo sentimos que vimos algo muito bonito, sentimo-nos reconhecidos em ver a nossa essência”.  

A importância dos Festivais de Cinema para filmes “Destello Bravío” é fulcral. Ainhoa frisou isso mesmo na nossa entrevista, mas deixou igualmente um recado a estes eventos: “Os Festivais de Cinema são importantíssimos para mostrar filmes como o meu, mas acho que deviam desvincular-se um pouco do streaming. Esta coisa do streaming dá-me um pouco de medo. Os festivais deviam apostar mais na transgressão, deviam preocupar-se mais com a evolução da linguagem de cinema e não ficar estancados numa linguagem clássica que há anos não se revoluciona. As plataformas não fazem isso, gostam de ficar estancadas no que têm. Essa responsabilidade não é absorvida por todos os festivais. A responsabilidade da transgressão a partir do conhecimento da linguagem cinematográfica. O criar uma evolução, uma riqueza, um caminho novo a seguir. Acho que há festivais quem não dão conta que têm essa função”.

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