Com uma carreira de duas décadas consolidada na TV, onde até se inclui a realização de episódios de “The Handmaid Tales”, Daina Reid estreou-se no cinema com um drama de horror passado na localidade rural de Waikerie, no sul da Austrália, e que vai colocar em litígio uma mãe, Sarah (Sarah Snook de “Succession”), e a sua pequena filha, Mia (Lily LaTorre).
Numa nova história sobre maternidade e trauma, vinda de um país que nos últimos anos tem abordado estes temas com maior ou menor fulgor, como se viu em “The Babadook” e “Relic”, a caixa e chave azul lynchiana da ignição emocional e transformação dramática deste “Run Rabbit Run” parece ser um coelho* que surge no dia de aniversário de Mia e que aparentemente é o primeiro sinal da convocação do passado de Sarah. Será em Mia que assistimos a transformações, físicas (aparência, voz) e psicológicas, com esta a afirmar não ser Mia, mas sim Alice, a irmã de Sarah que desapareceu sem deixar rasto quando aos 7 anos de idade.
Ao avançar das situações em que o espírito de Alice parece incorporar Mia, incluindo uma cena em que a mãe moribunda de Sarah vê na neta a filha desaparecida, acompanhamos igualmente a progressiva deterioração da saúde mental de Sarah. E à medida que a atmosfera do filme se torna mais pesada e a linha entre realidade e alucinação se esbate, toda a direção de fotografia, a montagem e o arranjo sonoro parece entrar numa espiral de destruição de barreiras mentais, lançando para fora memórias dolorosas reprimidas. E no processo, a magnificência e grandiloquência das paisagens ganha uma forma tão claustrofóbica como a casa onde a dupla pernoita ou o armário que por lá está onde os segredos do passado se escondem.

Se conceptualmente “Run Rabbit Run” consegue ter uma identidade própria, mesmo que evoque e repita em demasia situações e sensações que têm feito fulgor no cinema (onde até adicionamos “Hereditary”), a lente da realizadora não tem, da mesma maneira, uma fórmula ímpar para lidar com um guião minado de clichês, lugares comuns e previsibilidade. Por isso mesmo, sucedem-se “cheap thrills” que em vez de servirem de pistas para o espectador descobrir a verdade, apenas martelam o que ele já percebeu, tornando-se grande parte do filme num exercício redundante de falso mistério e pura confirmação. E, para isso, não era preciso uma longa-metragem, bastava uma curta.




















