Com atividades em diversos ramos artísticos e permanentemente em viagem, a portuguesa Helena Inverno e a mexicana Verónica Cabral aterraram de “para-quedas” na pequena localidade de Vimioso, concelho transmontano nos confins do Portugal continental, para uma encontro de cinema na altura da Páscoa, em 2010. Através do convívio local, ficaram a saber que a encenação da via sacra, ainda tradicional em comunidades rurais, só podia ser realizada com uma particularidade curiosa: dada a desertificação da zona, a organização do evento só podia ser feita contando com o auxílio… dos penitenciários de Bragança! Para investigar essa teimosa permanência da tradição e em busca deste Portugal remoto, voltaram um ano depois com câmara na mão para acompanhar o desenvolvimento do processo desde o início. O resultado é o documentário “Jesus por Um Dia”.
O que vos atraiu nesse ritual?
Helena Inverno: Antes de saber que esse ritual existia, nós já estávamos interessadas na questão de como certas tradições de mantém durante tanto tempo, como é que elas se transformam. Já havia esse interesse antropológico, já existia uma pesquisa na área. Quando chegamos a Trás-os-Montes falaram-nos de uma tradição que tinha algo de curioso e diferente, uma vez que para poder manter-se tinha que recorrer aos reclusos de um estabelecimento prisional por causa da desertificação – porque os homens tinham todos ido para o Brasil, para a França, para a Alemanha. Ou seja, na área não havia pessoal suficiente para desempenhar os papéis de Jesus e dos outros. Só graças a este projeto de reinserção social é que a tradição pode ser mantida.
Verónica Castro: Estávamos em abril, tempo de Páscoa, e fazia muito frio. Então alguém disse: ‘imagina o frio que eles devem sentir pendurados na cruz’. E nós dissemos ‘mas quem, como? Pendurados na cruz???’ Foi a partir desta experiência física de estar ali, em abril, com aquele frio, que começamos a fazer perguntas. Portugal é um país católico, já sabíamos que estes rituais aconteciam, mas como era ali?
Mas eles não podiam convidar homens de Bragança, por exemplo?
V.C.: Eles diziam que não encontravam lá ninguém que pudesse ser Jesus, ninguém que pudesse ficar pendurado numa cruz! Então lembraram-se dos reclusos… Ficamos estupefatas e decidimos fazer uma pesquisa para tentar perceber como aquilo acontecia – e como conseguiam tirar os reclusos, se eles aceitavam, se eram forçados… E também podiam fugir…
V.C.: Bem, não estava a pensar nisto, mas sim se haveria alguma violação dos direitos dos presos…
Mas legalmente, como isso é feito?
V.C: Eles só conseguem isso com o esforço e a dedicação de muita gente. Existem dois professores que exercem um trabalho dentro da prisão que nos explicaram que o processo faz parte de um programa maior de reinserção social.
Quanto tempo duraram as filmagens?
H.I.: Em torno de seis semanas. Neste período tínhamos hipótese de fazer visitas à prisão para ver como aquilo era feito. E nos permitiram filmar também.
Havia a preocupação de inserir este episódio num contexto mais vasto, o da própria realidade daquela região?
V.C.: É uma boa pergunta. Inevitavelmente manifestava-se este contexto, mas não era o tema. O tema era até que ponto as pessoas vão para manter essa tradição.
H.I.: Nós sabíamos que os reclusos iam contracenar com as pessoas da aldeia. Não sabíamos era como eles iam encontrar-se nem nada disso. Há uma altura em que o filme vai acontecendo, vai se fazendo e nós vamos vivendo aquilo na hora. Nós não tínhamos tanta informação assim. O que nós tínhamos era o protocolo de autorizações para filmar. Nós não sabíamos que aquilo era um encontro às escuras entre as pessoas da aldeia e os reclusos, que todos ensaiavam separado e depois no dia todos se encontravam. Não sabíamos nada disto. À medida que vamos filmando é que vamos descobrindo o filme. Era um risco que a nossa produtora corria – nós não sabíamos que filme íamos trazer. Ia tudo acontecer ali na hora. O filme não estava debruçado sobre aquela região, mas estava atento ao espaço também.
É um Portugal muito remoto…
V.C: De fato, é um Portugal muito específico. Mas ao mesmo tempo é interessante procurar um Portugal dentro do filme.
H.I.: Encontra-se um Portugal lá também. Não este urbano aqui de Lisboa, mas Portugal está lá muito vivo, dentro de um contexto rural, mas vivo. Houve uma altura que pensamos que estávamos a conhecer mais Portugal. Há um isolamento, uma fronteira geográfica. Há uma ilha Trás-os-Montes.
E há a sobrevivência desta mentalidade cristã ou católica que na cidade já se perdeu…
H.I.: Sim, lá os sinos tocam e as pessoas vão à igreja. Todos os dias!
Alguns reclusos eram de fora do distrito, nem sequer faziam parte da comunidade…
H.I.: Muitos sim. Para além disto alguns eram de etnias onde o catolicismo nem sequer está presente… Mas o que também é interessante era o potencial de transformação humana. Aquele recluso vai ser Jesus por um dia. E está a nos convidar a testemunhar o seu potencial de transformação. Mas nós sabíamos que isso ia ser um convite a todos nós, todos íamos ser Jesus por um dia – também poderíamos nos transformar. Os espetadores se calhar vão nos lançar olhares de desafio, pois não representamos a cadeia com a violência típica dos media. Quebramos clichés. Este é um filme sobre transformação e a última é a do espectador.
V.C.: É uma provocação para a pessoa olhar além do recluso que está a fazer de Jesus e ver a potencialidade que está em todos os nós de podermos ser ‘algum’ Jesus.
H.I.: Da mesma forma que qualquer um de nós também poderia ser um recluso. Basta um pequeno lapso e qualquer um de nós poderia estar lá.
Já têm novos projetos?
H.I.: Temos dois em andamento. Estão ligados às artes performativas. Um é uma colaboração com Ana Borralho e João Galante. Já filmamos em Lisboa e vamos filmar em Helsínquia. O filme não tem nome, mas a performance chama-se “Atlas”. Provavelmente será uma longa – só em Lisboa 100 pessoas vão participar – e mais 100 na Finlândia.
V.C.: Também será um filme sobre identidade, um filme que trata sobre Portugal e Finlândia.
H.I.: Também já estamos a trabalhar num projeto para a capital da cultura europeia de 2013, que será Marselha. Será uma colaboração com uma coreógrafa marroquina Bouchua Ouizguen.

