Existe uma beleza inerente na história de amor incondicional apresentada neste “O Mundo Vindouro”, filme que depois de ser exibido nos últimos dias do Festival de San Sebastián abre a segunda fase do Festival de Roterdão (dia 2), estreando curiosamente também no mercado do Video on Demand em Portugal.
Porém, e infelizmente, o grande amor transposto para o grande ecrã – baseada no conto de Jim Shepard, escrito em 2017 – pela norueguesa Mona Fastvold é carregado de tal forma por uma narração em jeito diário tão pesada que se sente plástica, como se o texto, as entoações e as belas imagens imprimidas pela direção de fotografia estivessem a atropelar-se e a competir pela nossa atenção, nunca funcionando assim o filme como um todo.
Essa plasticidade, que cria uma atmosfera e aura bucólica de vidas renascidas, mas sempre num registo opressivo e pouco absorvente, chega também até nós através das personagens, nas suas iterações e principalmente na exposição aberta dos seus sentimentos, que nos dão uma estranha sensação de modernidade nesta América dos anos 1850.
Na verdade, “O Mundo Vindouro” não só percorre caminhos que Céline Sciamma trilhou no seu “Retrato da Rapariga em Chamas”, como igualmente procura conduzir o espectador numa viagem ao papel da mulher noutras eras, ao jeito que Kelly Reichardt também já mostrou no seu cinema, e até William Oldroyd o fez em “Lady Macbeth“.

A atriz Katherine Waterston, que por demasiadas vezes faz-nos lembrar Carey Mulligan na construção de uma expressividade reprimida, é a peça central deste conto que apenas ocasionalmente consegue ser comovente, interpretando Abigail, a esposa de um rancheiro, Dyer (Casey Affleck). Cada vez mais preenchida por um vazio e uma solidão física e psicológica, fruto de um distanciamento em crescendo em relação ao marido, ela sonha ter um Atlas, certamente para sair da esfera do seu pequeno e claustrofóbico mundo. Mas será bem perto que ela irá encontrar uma nova chama para iluminar o seu futuro, isto quando começa a ter uma relação proibida com a misteriosa, altiva e sedutora Tallie (Vanessa Kirby), também ela casada.
Como disse logo no primeiro parágrafo, existe uma beleza individual em todos os elementos apresentados, mas correndo todos em simultâneo e no mesmo sentido, num exercício de poesia mais pensada que sentida, e num arranjo mais artificial que orgânico, nunca verdadeiramente se sente que o grande amor que dizem-nos estar ali à nossa frente, efetivamente está.















