Quando surgiu em 2018, “A Quiet Place” (Um Lugar Silencioso) mostrou ter uma capacidade rara nos tempos que corriam: mesmo não inventando nada, nem redefinindo o género, John Krasinski entregava um objeto tremendamente eficaz na construção de suspense, isto num mundo repleto de monstros que dizimavam humanos a qualquer instante.

O ruído ou o silêncio separaram os vivos dos mortos, estando em foco numa família que essencialmente estava retida na sua quinta a tentar sobreviver a criaturas ferozes enquanto lidava com um passado traumático de perda familiar.

Chegados ao segundo capítulo, nesta agora saga mantém-se a proporcionalidade entre a ausência de inovações no enredo e a tremenda eficácia do realizador em construir um clima de permanente tensão. Porém, desta vez, Krasinski consegue, não só alargar o raio de ação territorial da família, como introduzir novas personagens e soluções, alargando o mundo a que temos acesso nestes momentos pós apocalipse, mas igualmente lançando um olhar a como tudo começou.

Essa expansão conceitual e territorial mostra também novas e interessantes capacidades de Krasinski no seu trabalho na realização e argumento, construindo este várias sequências extraordinárias, onde o tipo de planos, a sua longevidade e até os ângulos que a câmara adopta enriquecem toda uma experiência sensorial e psicológica, alargando assim o espectro artístico do seu filme.

Claro está que não escapamos frequentemente aos chamados “cheap thrills”, mas felizmente “A Quiet Place 2” continua a manter na sua atmosfera sombria e imprevisível por trás desses truques imediatos o seu maior trunfo, continuando a assustar mais pelo ambiente e atmosfera criado sobre toda a obra do que por esses truques momentâneos e imediatos (normalmente inflacionados pelo aumento do som).

Neste universo, Emily Blunt e filhos (Noah Jupe e Millicent Simmonds estão novamente magistrais) encontram agora um velho conhecido (Cillian Murphy), embarcando em mais uma jornada tensa por um território que esconde o terror. Com essa deslocalização e separação dos membros do grupo, Krasinski coloca frequentemente a ação a decorrer simultaneamente em vários espaços, sendo aqui o trabalho na montagem de Michael P. Shawver um elemento essencial para criar um ritmo de constante frenesim, ansiedade e inquietação.

A isto acresce a também eficaz partitura musical de Marco Beltrami, a direção de arte muito precisa de Christopher J. Morris (nunca soa a plástica), e mais uma vez o trabalho sonoro (num mundo regido a silêncios e gestos) de Erik Aadahl (supervisor da montagem de som) para criar aquele que é, facilmente até agora, o filme mais tenso de 2021 e aquele onde a experiência de assistir numa sala de cinema vai além da magnificência do espectáculo visual.

Num mundo do entretenimento cada vez mais carregado de produtos apocalípticos, distópicos e movidos quase sempre pela manipulação emocional em seio familiar, “A Quiet Place 2” revela assim continuar a ser um objeto à parte, mantendo nas suas personagens – forçadas ao primitivismo para a sobrevivência – o centro, o turbilhão de todas as emoções, criando nisto uma rara ligação com o público.

É que “A Quiet Place 2” simultaneamente assusta, enerva mas também aconchega com transformações e resoluções que se sentem orgânicas e não movidas pelo espetáculo pirotécnico. É outro tipo de cinema espetáculo, profundamente eficaz e sem necessidade do espectador desligar o cérebro para acompanhar a viagem.

A não perder… 

Pontuação Geral
Jorge Pereira
um-lugar-silencioso-2-eficacia-redobrada-em-thriller-onde-o-silencio-e-ouro“A Quiet Place 2” simultaneamente assusta, enerva mas também aconchega com transformações e resoluções que se sentem orgânicas