São fundamentalmente três as histórias ligadas pelas marcas da guerra que compõem este “Bellum – The Daemon Of War”, estreado no Visions du Réel na sua competição principal, um ensaio complexo que sem cedências traça um retrato presente e futuro dos conflitos, agora assente em equações digitais movidas a inteligência artificial para produzir novas vítimas, remotamente.
O primeiro a dar o rosto a estes tempos de novos conflitos e soluções, mas com igual impacto físico e psicológico nos seus soldados e populações afetadas, é Frederik, que na Suécia projeta e desenvolve novos sistemas de inteligência artificial para a indústria aeroespacial, tanto para fins civis quanto militares. Apesar de ser apenas um rosto inicial de uma linha de montagem que termina após um projéctil ser disparado e provocar as consequências que sabemos, ele é a definição perfeita de que não há inocentes nesta indústria, mesmo que acredite estar no lado certo da barricada ou se teorize sobre o final dos conflitos armados.
E dele passamos para os EUA, algures nas proximidades de Los Alamos, no Novo México, onde a Base de Operações e Treinamento de Drones do Exército dos EUA conduz a sua guerra à distância. Fora da base, os manifestantes empunham cartazes protestando contra a guerra, enquanto numa contra-manifestação alguns veteranos ridicularizam essas ações e aplaudem quem entra e sai do complexo militar.
É por essas paragens que conhecemos Sweed, e também Bill Lyon, combatente americano que passou pelo Afeganistão, e ao qual anseia voltar mais uma vez, tentando no entretanto superar os traumas que experimentou e que condicionam a sua vida num local que depois das experiências adquiridas e da adrenalina acumulada, sente que tornou-se demasiado “pequeno” viver.
E temos ainda finalmente acesso ao testemunho da veterana fotógrafa de guerra Paula Bronstein, onde através de testemunhas e imagens cruéis que capturou no Afeganistão, vislumbramos o “produto final”, o sofrimento da guerra.
É importante falar em “produto final” porque associado à guerra estiveram quase sempre negócios, sede de conquistas e expansão. A indústria da guerra, especialmente nos EUA, mas não só, é um negócio fundamental, e mais será se um dia – imaginemos – o porte de armas pelos cidadãos dos EUA for de alguma forma condicionado. Tem sido mesmo no campo militar que surgem os avanços tecnológicos e secretos que mais tarde entram no mundo civil, sejam os primórdios avançados para a computação que Turing desenvolveu, seja a própria Internet, uma derivação da Arpanet, desenvolvida pelo Departamento de Defesa dos Estados Unidos.
A abordagem que o duo sueco David Herdies e Georg Götmark aplicam neste “Bellum – The Daemon Of War” é o da observação, usando através da montagem uma linha narrativa para mostrar a ligação entre todas as histórias particulares e coletivas (do exército dos EUA), onde um denominador comanda. A necessidade de estar sempre à frente na tecnologia militar para o exercício da arte da guerra.















