A obrigação, mascarada de dever, em entregar nos grandes blockbusters – feitos a partir de comics, ou não – rajadas incessantes de ação, doses cavalares de romantismo com uma eventual perda pelo meio, e lições de vida traduzidas em 2 ou 3 frases feitas, tornam este género de filmes em produtos de consumo ligeiro e imediato, que não provocam grandes mazelas, mas também não levam a nenhum tipo de reflexões. É cinema cujo entretenimento é o fim, e não há mais nada.
Patty Jenkins tem consciência dessas amarras, diríamos até limitações e clichês que terá de enfrentar num filme de grande orçamento, inserido num universo ainda maior, mas no meio de muita sacarina, lágrimas e sequências de ação hiperbólicas, a cineasta devolve um filme musculado com algum carisma e uma toada “camp” muito ao jeito das produções semelhantes dos anos 70 e 80, onde se incluem a série da “Mulher Maravilha” protagonizada por Lynda Carter, ou o Super-Homem assumido por Christopher Reeve sob a liderança de Richard Donner.

Se no primeiro filme de Diana viajávamos pela autodescoberta da protagonista dos seus poderes, do seu mundo, e da sua ligação ao resto, com a ação a decorrer na 1ª Guerra Mundial, onde Diana (Gal Gadot) se cruza e apaixona pelo piloto Steve Trevor, agora, como o título “WW84” diz, estamos em 1984, ainda no tempo da Guerra Fria, com a heroína a trabalhar num museu e a ter de lidar com artefactos históricos recuperados. É no meio desses artefactos que uma estranha pedra encontrada num armazém secreto, que parece sair de “Gremlins” ou de “Jack Burton nas Garras do Mandarim”, vai atrair a atenção de um homem de negócios com ideias de sucesso a qualquer custo (Pedro Pascal), e de uma cientista muito pouco popular (Kristen Wig).
Ambos veem o artefacto como a chave para mudanças pessoais na direção ao sucesso, algo que vai colocar em perigo todos já que as ações do grande vilão são de profunda dominação e subjugação dos restantes. É aí que a Mulher Maravilha volta à ação para tentar conter qualquer utilização indevida dessa pedra e restabelecer a ordem, travando qualquer atitude egocêntrica com consequências nefastas para o mundo.
As marcas dos anos 80, tão repescadas para os nossos tempos por séries como “Stranger Things”, sentem-se em toda a construção desde “WW84”, um filme onde o design de produção, o guarda-roupa, penteados e maquilhagens devolvem-nos a uma época cujo cinema e tv também tentaram entreter a qualquer custo para aligeirar as agitações sociais e políticas da explosão económica e neoliberal, em mercados cada vez mais globais. Pelo meio, há outras coisas interessantes, menos óbvias, como os sistemáticos piropos de homens a mulheres banalizados desde sempre, até que começaram a ser desconstruídos no novo milénio, e o eterno patriotismo norte-americano (os comics sempre foram uma máquina de propaganda ideológica), aqui carimbado por um momento a bordo de um avião no meio do fogo de artifício do 4 de julho.

Mas antes dessa cena, e logo no início, quando Diana salva uma mulher de ser atropelada, outra de cair de uma grande altura, e entra por um centro comercial adentro para travar um roubo, percebemos que as sequências são tão over the top – longínquas de qualquer realismo que os filmes de super-heróis ganharam nos filmes Batman de Christopher Nolan, ou no recente Joker – que sentimos que “WW84” nunca se leva realmente muito a sério e está aqui apenas para entreter durante 2h30.
Claro que, à medida que o filme avança, a ação torna-se cada vez mais explosiva e exagerada, com poses tão surreais no meio de combates que apenas nos levam a sorrir pelo non sense das mesmas, como uma sequência numa estrada egípcia que termina com Diana a salvar um par de miúdos que joga à bola numa estrada no meio do deserto.
Na reta final, entram em ebulição os dois vilões, a lutarem pela atenção do espectador, e o moralismo invade toda a obra de forma kamikaze. Se historicamente, o cinema sempre privilegiou os arquétipos masculinos como fonte de inspiração juvenil, há muito que obras de ação centradas em mulheres alteraram essa visão. “Mulher Maravilha” e “WW84” não são exceções, existindo implicitamente a criação de uma imagem de herói a seguir, não pela força, mas pelos valores que carrega, de justiça e seriedade. Um regresso à infância no início do filme demonstra mesmo isso, presenteando-nos com uma lição que servirá posteriormente para um final demasiado doce onde os diálogos e sentimentos superficiais são dignos da velha literatura de cordel.
Mas como se disse anteriormente, existe sempre a “noção” que nada disto é levado muito a sério, também materializado no humor (em particular da personagem de Steve Trevor no “futuro”), e no final fica-nos um objeto que embora nunca surpreenda, ou marque realmente a nossa mente, cumpre os seus objetivos. E neles agrega-se um conjunto de atores que têm força e charme suficiente para nos conduzir a um resultado eficaz.















