Prejudicado por uma edição em ponto morto, adotada como um dispositivo para favorecer uma inquietude existencial tão sólida quanto uma bolha de sabão, “O Céu da Meia-Noite” (“The Midnight Sky”) é a grande deceção desta temporada, estruturada para abocanhar nomeações ao Oscar por vezes abraçando as convenções do chamado “filme para prémios”, incorrendo em clichês tão (ou mais) graves quanto o receituário dos bolos usado no cinema mainstream. O que existe de mais grave nesta tentativa de George Clooney em dialogar com duas linhagens de género com fórmulas solidamente consagradas – a ficção científica e o filme catástrofe – é a indisfarçável falta de sintonia (e genuinidade) na conexão de Clooney (como narrador) com ambos os registos e a total incapacidade do guião de Mark L. Smith em equalizar os núcleos dramáticos distintos da trama. Já o que existe de mais triste é perceber como o grande realizador que Clooney esboçou ser na primeira metade dos anos 2000, com “Confissões de Uma Mente Perigosa” (2002) e “Boa Noite, e Boa Sorte” (2005), perdeu-se completamente no momento em que optou por se afastar dos conflitos da política. O Poder (e a sua corrupção) parecia ser o assunto de arranque da obra de um realizador e ator que tornou-se inimigo de Trump e do legado conservador. Mas com o passar dos anos – e dos fracassos que desvaneceram a sua ascendente carreira -, a falta de retidão e a aposta numa diversidade (sem qualquer perspetiva) de temas e de filões, indo da comédia (“Jogo Sujo”/ “O Amor Não Tem Regras” no Brasil) a aventuras de guerra (“The Monuments Men – Os Caçadores de Tesouros”) atomizaram não apenas o seu prestígio de arranque como cineasta, mas como a sua potência em mobilizar olhares.
Nada parece mais sintonizado com essa condição atual de Clooney do que o próprio enredo do seu “The Midnight Sky”, a ser lançado pela Netflix no dia 23 de dezembro, à beira do Natal, com uma exibição prévia em salas de projeção de diferentes países. No enredo derivado do romance “Good Morning, Midnight”, da americana Lily Brooks-Dalton, temos um cientista que, um dia, foi referência para a navegação espacial, mas é forçado a confrontar a erosão do seu projeto de vida. Na juventude, o Dr. Augustine Lofthouse (Clooney) foi promissor nos seus estudos e optou por um matrimónio com a Ciência, em vez de permanecer ao lado de uma paixão (Sophie Rundle) que, para ele, foi só de ocasião. O que estudou parece ter a ver com a catástrofe que assola o mundo em 2049, quando todos precisam se isolar em abrigos no subterrâneo. O que viveu com a personagem de Sophie parece ter resvalado numa quase gravidez, o que o leva a repudiá-la, gerando um arrependimento que se arrasta pela velhice afora.
Frise o verbo “parecer”, nesta crítica, pois é só o que Clooney e o argumento de Smith nos dão. Há uma impressão, num certo momento, de que essa aposta numa estrutura elíptica traduza a psique já acidentada de Augustine numa Terra de ruínas, onde a sua saúde é preservada por medicamentos continuamente engolidos a seco. Mas essa impressão esvai-se rapidamente: as elipses do filme não geram sensações longevas, nem conduzem a respostas. São meras lacunas a espelhar uma construção dramatúrgica vaga, sem tridimensionalidade. Augustine são caras, bocas e pêlos grisalhos. Diante do carisma de Clooney e do seu inequívoco talento cénico, essas tais caras e bocas enganam e parecem mais graves do que de facto são. Mas falta substrato existencial que as ampare. De novo, recorre-se à analogia entre Clooney e Augustine: escolhas infelizes desperdiçaram um potencial narrativo que poderia ter feito dele um Costa-Gavras dos EUA, com especial predileção por assuntos da cultura televisiva. Assim como Augustine não é mais capaz de ser um gerador de postulados na suas pesquisas, Clooney não alcança a mobilização mediática que desfrutava no passado.

Não é o rancor que move estas palavras, mas uma profunda deceção com a desestruturação de uma persona que, nos anos 1990 e 2000, definiu plateias e mesmo alguns caminhos para o cinema americano. Alçado à dimensão de estrela como Dr. Doug Ross na série “Serviço de Urgência” (“ER”/ “Plantão Médico” no Brasil), o talentoso sobrinho da cantora Rosemary Clooney despontou como astro no grande ecrã com “Aberto Até De Madrugada” (“Um Drink No Inferno” entre os brasileiros), 1996, sob a realização de Robert Rodriguez, demorando, de seguida, a acertar num blockbuster de grande fôlego. Em 1998, engatou numa parceria (e sociedade) com Steven Soderbergh, em “Romance Perigoso” (“Irresistível Paixão”, no Brasil), e, a partir de 2000, com “Irmão, Onde Estás?” (“E aí, Meu Irmão, Cadê Você?”, no Brasil), tornou-se parte da trupe dos irmãos Coen. Ali, a promessa de atuação que se impunha por um misto entre o improviso e o improvável ganhou carimbos autorais. A autoralidade alheia contribuiu para a construção da sua própria voz como cineasta. O seu “Goodnight, and Good Luck” (prémio de melhor argumento em Veneza, em 2005) foi uma das mais contagiantes retomas da estética política do cinema americano dos anos 1970. Mas a grandiosidade e a ousadia vistas ali não se repetiram. Não foi por falta de empenho. Laureado com o Oscar de melhor ator secundário, em 2006, por “Syriana”, Clooney nunca deixou de tentar fazer algo de pessoal e provocador, como “Suburbicon” (2017) bem tenta sugerir. Só não conseguiu a performance que esperava.
“The Midnight Sky” tem uma fome insaciável de inventar e de dialogar com filmes dos anos 1970 que também se debruçavam por distopias de isolamento, como “O Quinteto” (1979), de Robert Altman. O que emperra a concretização do seu virtuosismo e das suas ambições é o modo como o guião desmancha-se. O drama de Augustine no passado, quando Ethan Peck vive a personagem, resume-se a frases de melodrama sem consistência. É um background romântico de abandono para dar um eco de “Solaris” (filme de culto russo de 1972, cujo contexto foi reavaliado por Clooney e Soderbergh em 2002) ao filme. Eco esse que não reverbera. Não se alcança reverberação também no conflito de Augustine com uma menina sempre calada que encontra na sua estação espacial, esboçando uma dimensão de paternidade rompida similar ao seminal “Interestelar” (2014).
Essa tal estação é onde Augustine permanece quando a Terra, ameaçada por um desastre, é esvaziada. Ele fica num laboratório e vai tentar ajudar uma tripulação de astronautas que, longe do planeta, anseia regressar. O terceiro segmento dramático da trama está nesta nave, onde uma cientista gestante (Felicty Jones) é a figura com maior destaque. Bons atores como Tiffany Boone, David Oyelowo, Deminán Bichir e Kyle Chandler integram o encouraçado estelar do filme, mas Mark L. Smith não consegue dar recheio existencial a nenhum deles: não se sabe o que anseiam, o que os alimenta, o que move os seus ideais. São personagens sem qualquer dimensão que lhes garanta relevância. Para piorar, Clooney demora – e demora – a engatar o drama deles com as angústias de Augustine, levando o espectador a amargar a sensação de estar a ver dois filmes num só. Dois filmes que não se conjugam. Serve como compensação para a anemia dramática, uma direção de fotografia requintada de Martin Ruhe. Mas esta, mesmo bem lapidada, não traz nenhuma solução visual surpreendente no manuseio da luz, no embate com a cor. Igualmente insossa é a banda sonora de Alexandre Desplat.
Na sua reflexão ecológica, esboçada em um par de falas, o filme flerta com “O Deserto Vermelho” (Leão de Ouro de 1964), de Antonioni. Mas é apenas mais uma aparente alusão que nada agrega a uma narrativa que não encontra o seu eixo gravitacional. Como realizador, Clooney saiu da órbita de si mesmo.















