Não é a lenda que o diz, mas apontamentos de produção: o guião de “Let Them All Talk” consistia apenas no esboço das cenas. Todos os diálogos foram improvisados pelo elenco.
E que elenco (Meryl Streep, Gemma Chan, Dianne Wiest, Candice Bergen e Lucas Hedges) é este o do novo filme de Steven Soderbergh com marcas distintas nas personagens e definitivamente na estética, mas completamente “Woody Alleniano” no espírito e enredo.
Filmado em agosto deste ano, a bordo de um cruzeiro, “Let Them All Talk” segue uma escritora, Alice (Streep), que decide convidar para uma viagem duas velhas amigas (Wiest e Bergen). Com ela segue também o sobrinho (Hedges), que a bordo do navio se vai cruzar e interessar emocionalmente pela responsável por uma editora, que está preocupada com a entrega de um novo livro por parte de Alice.
Temáticas como bloqueio de escrita, feridas psicológicas e neuroses por curar, sentimentos de revolta e um relacionamento amoroso a despoletar são temas férteis que têm povoado de forma sistémica o cinema de Allen, mas aqui elas são armas para uma batalha a que Soderbergh acrescenta negritude e sobriedade, onde Allen encontra normalmente ilusão e fantasia.
O rancor entre Bergen e Streep, com a primeira a acusar a segunda de lhe destruir a vida, é mesmo uma das forças nucleares deste pequeno filme de um realizador que não se cansa em mostrar os seus dotes de camaleão na exploração de narrativas (thrillers, terror, dramas, comédias, ação), e no uso da tecnologia (digital, película, smatphones), a maioria das vezes com resultados bem satisfatórios, ainda com alguns tropeções à la Adam McKay como foi “Laundromat: O Escândalo dos Papéis do Panamá”. A forma prolifera com que entrega filmes atrás de filmes, quer como realizador (pelo menos 1 filme por ano desde 2017), como produtor (7 desde 2017), é também uma das suas maiores forças, não tendo igualmente problemas em entrar pelas rotas televisivas (“Mosaic“) e do streaming – meio preferencial do realizador para divulgar nos últimos tempos os seus trabalhos.
Na mente ficam ainda algumas interpretações cuidadas, com Bergen e Chan a poderem dar um ar da sua graça, pelos seus papéis secundários na época de prémios que já se iniciou, e ainda algum mistério, “poucaxinho” diga-se, mas suficiente para afastar a fita do espectro da previsibilidade e do filme em série para somar mais um cheque.
No todo, “Let Them All Talk” é assim um objeto curioso que consolida a carreira do realizador e das suas atrizes, que desta vez não necessitam de próteses, nem outros artefactos para mostrar a qualidade dramatúrgica que todos lhes reconhecemos.















