Pegar num cineasta como Rainer Werner Fassbinder, um dos mais importantes representantes do Novo Cinema Alemão, aparentava ser uma tarefa hercúlea para o cineasta germânico Oskar Roehler, que há uns anos atrás tinha entrado pelas guelras do cinema alemão, analisando a ascensão e queda do ator Ferdinand Marian, após participar no filme antissemita “Jud Süß” (1940), e adaptado à sétima arte uma obra de outro “enfant terrible”: “As Partículas Elementares” de Michel Houellebecq.
Personagem tão carismática como controversa, capaz de corar e gelar nos tempos atuais um Lars Von Trier ou Gaspar Noé, frequentemente apelidado de antissemita, Rainer Werner Fassbinder viveu uma vida entre vaias e aplausos, tragédias e excessos, sempre contornados com mais ou menor febrilidade mediática até ao dia em que sucumbiu a uma overdose – aos 36 anos – na sua casa em Munique.
Longe de qualquer academismo hollywoodesco, ainda que apresentado uma narrativa linear e com muito pouco de novo no que diz respeito a estórias do gêrmanico para contar, Oskar Roehler projeta um filme visualmente espampanante, acompanhando também ele a estética e ideias conceituais artísticas de Fassbinder, que ao longo de dezenas e dezenas de produções, entre cinema, teatro e TV, atravessou inúmeros estilos e anti-estilos, ainda que no seu auge tenha conseguido brilhar mas incandescentemente através dos melodramas distantes de sentimentalismo descartável.
O início do filme – de uma teatralidade exacerbante, capaz de afastar imediatamente as massas cinematográficas – introduz-nos logo a sensação de não estarmos num biopic comum, com Rainer a lançar logo uma série de frases, ideias e inspirações, com os nomes de Godard, Walsh e Melville (através de uma referência a “Le Samurai” e Alain Delon) a encostarem os espectadores às cordas.
Aí também começamos a navegar por territórios onde criatividade, cinema e vida pessoal estão sempre sintonia, até porque como ele diz num dos momentos mais curiosos do filme, numa conversa com Andy Warhol: gosta de ir onde lhe dói, onde magoa. Atores, engates, paixões, “amores da sua vida”, mas também os parasitas habituais do mundo das artes e entretenimento, fundem-se numa única peça que se entrelaça na edificação carismática de uma persona sempre hiperbólica nas emoções, atrevida nas expansão dos limites da técnica cinematográfica, e no mínimo detestável com quem estar. Alguém tão capaz de humilhar quem o rodeia, como de literalmente beijar os pés quando eles o agradam, e sempre pronto a entregar o coração a amores impossíveis, ou digno de surpresas quotidianas de verdadeiros atos de amor.
Há muitas cenas memoráveis por aqui, capazes de gelar homofóbicos pelo grafismo carnal com que as suas relações (de uma noite ou de “uma vida”) são expostas por Oskar Roehler, o qual encontra em Oliver Masucci uma força maior para “mimetizar” os tiques expressivos do cineasta e os seus gostos e fetiches muitos próprios, como a apetência para as Cubas Libres e o facto de chamar a todos os membros das suas equipas de trabalho nomes feminos.
Masucci, que já foi Hitler numa comédia e marcou presença em sucessos comerciais como a série “Dark”, veste uma pele não menos diferente – na dificuldade de interpretar – do que a de Jonas Dassler como Fritz Honka em “O Bar da Luva Dourada”, deformando-se e metamorfoseando-se até à mais ínfima minudência.
Ao lado dele surge um bloco igualmente estilizado de atores que assumem direta ou indiretamente os grandes nomes que acompanharam o cineasta na sua jornada. Kurt Raab (Hary Prinz), Armin Maier (Jochen Schropp), El Hedi Ben Salem (Erdal Yildiz) e Brigitte Mira (Eva Mattes, que surgiu ela mesmo em quatro filmes do realizador) aparecem com os nomes próprios, mas existem também pseudónimos que nos ligam a outras figuras, como Martha (Frida-Lovisa Hamann), claramente uma forma de Hanna Schygulla. Todos eles surgem como um bloco unificado de talento, podendo apenas se lhes apontar alguma incapacidade – derivada do guião – em sublinhar melhor as suas relações com o cineasta, e o jogo entre o beneficiar do génio de Fassbinder, ou sofrer e fragilizarem-se com ele.
No final, e embora seja sempre um filme menor que o homem e a figura construída em seu torno, “Enfant Terrible” é um filme incapaz de se render ao óbvio e ao cinema comercial mecanizado. Quanto a Rainer Werner Fassbinder, talvez ele tenha querido ter a mesma ambição da personagem de Melville no filme de Godard “O Acossado“: tornar-se imortal e depois morrer.
















