Antes de entrar pela análise concreta ao filme “Misbehaviour“, há que fazer um reparo ao infeliz título nacional atribuído: “Mulheres ao Poder”. E esse reparo surge, não só porque o filme não é nada sobre isso, como o título contribui para a perceção errada que muitos ainda têm de que “feminismo” é apenas um tentativa de substituição de poder, de uma sociedade patriarcal pela matriarcal, e não uma legítima luta pela equidade entre géneros.
Dito isto, sigamos então para a análise deste crowd pleaser com uma mensagem política clara, mas igualmente reflexiva e que certamente provocará discussão na esfera do feminismo interseccional, até porque num dos momentos chave, Gugu Mbatha-Raw e Keira Knightley entram em confronto pela questão do privilégio branco e burguês nas discussões feministas que absorvem o filme. Baseado em factos e personagens reais, “Misbehaviour” segue a forma como um grupo de mulheres se organizou na forma do Movimento de Libertação das Mulheres para protestar contra o concurso de Miss Mundo em 1970, lutando contra a objetificação da mulher nesta espécie de programa similar a um “concurso de gado”.
O protesto contra a sociedade patriarcal não é o único tema quente em jogo numa era politicamente muito instável, pois a presença da África do Sul em pleno regime de Apartheid fica marcada por duas concorrentes do país, uma branca e outra negra, isto para além de haver um apontamento à primeira participação de Granada no concurso, região britânica que teria apenas quatro anos depois a sua independência.
Tal como “As Sufragistas” de Sarah Gavron, que acompanhava a luta das mulheres pelo direito ao voto, ou “Pride-Orgulho” de Matthew Warchus, que seguia a forma como um grupo de ativistas lésbicas e gays arrecadaram dinheiro para ajudar famílias afetadas pela greve dos mineiros britânicos em 1984, “Misbehaviour” apresenta um leque de personagens variado capaz de criar uma identificação pessoal com o espectador, servindo doses iguais de comédia e drama sempre com o espectro e ambição comercial de chegar ao maior número de pessoas possível. E é aí que o filme perde, pois nunca se sente que quer sujar as mãos e contrariar a tendência para agradar, de “ser bem comportada”, preferindo ser pop a punk e mais “feel good” que “feel real”.
Habituada à TV, onde assinou episódios de “The Crown“, entre outros, Philippa Lowthorpe tem um olhar teatral à Phyllida Lloyd e constrói o seu filme sem grandes artifícios, arrojo ou momentos de grande cinema, sendo este mais um objecto dependente do texto do guião e da prestação do elenco, onde sobressaem – além dos dois nomes já referidos – uma Jessie Buckley traquina à la Natasha Lyonne, um Greg Kinnear a mimetizar o comediante machista Bob Hope, e um sempre hilariante, mas sério, Rhys Ifans como o ansioso fundador do concurso Miss Mundo, Eric Morley.















