No início do filme um cuco, fiel à uma prática comum desta espécie, desaloja um filhote de outro pássaro empurrando-o para fora do ninho e condenando-o à morte. A professora Gemma (Imogen Poots) explica à uma pequena aluna inconformada com o filhote morto que encontra no chão, que esta é a “natureza das coisas”.
Para os autores da história, Lorcan Finnegan (também realizador) e Garret Shanley,no entanto, não há nada de necessariamente natural no facto dos seres humanos com o poder de escolha submeterem-se, ainda que inconscientes, à qualquer espécie de “lei natural” ditada pelo conformismo. Assim, quando o simpático casal formado por Gemma e Tom (Jesse Eisenberg) procura uma agência imobiliária (um bom ponto de partida para uma história de terror) para arranjar uma casa e, sem que se deem em conta, mergulhar numa existência regulada pelo hábito (simbolizado mais tarde nas cenas conjuntas de escovação dos dentes), o que vão encontrar não é o sossego do lar, mas uma espécie de espelho distorcido das suas aspirações.
O sinistro vendedor (Jonathan Aris) os leva a conhecer Yonder, um extenso condomínio de casas, ruas, jardins e telhados iguais para, diz o cartaz, construírem a “família perfeita”. A partir daqui o filme entra no anti-naturalismo da ficção científica através do artifício do “time loop” e, depois de irremediavelmente estacionados no número 9 de uma das ruas e regidos por um poder superior contra o qual não têm hipóteses, recebem um bebé com o aviso “criem-no e serão libertados”.
Diferente de obras que exploram o recurso do “loop”, como “O Feitiço do Tempo”, por exemplo, onde a perplexidade e o desespero iniciais dão lugar a um espécie de moral edificante a exemplo das fábulas, aqui não é muito certo que os protagonistas entendam o que se está a passar. Num momento crucial Gemma vai lamentar horrorizada que “já não sabe quem é e do que faz parte” para em outro, em confronto com um algoz, dizer “Tudo que eu queria era arranjar uma casa” – para ouvir a resposta: “palerma, você está em casa”. Por outras palavras, esta foi de facto a vida que, “sem querer”, ela escolheu.
Com uma ideia ampliada da sua curta-metragem “Foxes”, onde o diferencial para um bairro igualmente homogéneo (comum na Irlanda, terra do cineasta) eram as raposas que despertavam a animalidade de uma aborrecida mulher suburbana, “Vivarium” substitui a ideia do monstro, artifício gráfico, por outro mais sutil – na linha de obras como “A Terra em Perigo” (e o seu “remake”, “A Invasão dos Violadores”), onde o maior de todos os terrores era a perda da individualidade.
Com excelentes pormenores visuais e sonoros, Finnegan conduz seu drama particularmente sem máculas, revelando simbolicamente que o “loop” mais horrível revela-se não ser o do casal, mas o de que todos os dias entram nas agências casais à procura da “vida perfeita”, preferencialmente numa vizinhança asséptica e distante.















