Como uma Boneca Russa (Matrioska), Anna é a nova heroína do cinema de Luc Besson, o qual ultimamente só sabe fazer uma coisa: reciclar.
Afogado em dívidas, num processo de insolvência da sua EuropaCorp, e acusado de violação e assédio sexual, a vida de Luc Besson – o cineasta francês mais virado para o cinema de Hollywood desde os anos 80 – não tem sido fácil.
Ao fracasso de Valerian e a Cidade dos Mil Planetas, o realizador respondeu cinematograficamente com este Anna, uma incursão no mundo dos assassinos a que ele está tão familiarizado [Nikita-Dura de Matar; Leon, o profissional; Colombiana*; Transporter*]. Mais uma vez, o protagonismo é dado a uma mulher, desta vez encarnada por uma modelo transformada em atriz – Sasha Luss – um pouco à imagem do que o cineasta já tinha feito com Milla Jovovich (5º Elemento), Anne Parillaud (Nikita**) e Scarlett Johansson (Lucy). Besson sempre gostou de mulheres a distribuir pancada nos seus filmes de ação e este Anna é uma nova incursão no género para a geração John Wick (Atomic Blonde tentou ser isso também).
Coberto de camadas e camuflagens, o símbolo das matrioskas assenta como uma luva neste thriller de espionagem e ação sem os “esteróides” de Lucy, mas com uma Sasha Luss a demonstrar talento, beleza e carisma. A nossa modelo, espiã, assassina, muda de imagem (cabelo), identidade e amante, como quem muda de roupa, mas esse nem é o melhor artifício usado por Besson para melhor caracterizar esta “Boneca Russa” narrativa. Na verdade, isso é melhor conseguido com uma edição anacrónica dos eventos. Assim, e de forma a preservar e acentuar o seu tom de thriller e mistério, Besson baralha temporalmente todos os eventos, descobrindo o espectador, pouco a pouco, como quem retira uma boneca russa dentro de outra, a génese das mudanças comportamentais e dos planos da “nossa assassina” presa a vários mundos da espionagem.
Nisto, Anna consegue ser um filme curioso, especialmente para os fãs de cinema de ação e intriga internacional, mas a forma como estranhamente se mostra conservador nos seus clichés e lugares comuns – como na apresentação de todas as personagens ao serviço da protagonista (Luke Evans, Cillian Murphy, Helen Mirren) – acaba por desaguar numa experiência frustrante. E mesmo com o seu enredo rocambolesco e nunca levado muito a sério, Anna acaba por ser desapontante e extremamente previsível o seu final, até porque sabemos o quanto Besson gosta de personagens antissistema de moralidade questionável.
Por tal, e no meio da nostalgia do género de filmes que Besson gosta de fazer, das personagens femininas belas e letais que o acompanham desde sempre, e pela banda-sonora com reminiscências de anos 90 (há um vídeoclipe completo de uma música dos INXS), Anna acaba por ser um filme que consegue cativar minimamente dentro do seu modus operandi de cinema de consumo rápido e descartável. Mas ainda assim, esperava-se mais de um cineasta que nos anos 80 e 90 chegou a inovar nos seus produtos, mas que nos últimos anos vive apenas e só do carisma das suas personagens no meio de todos os lugares comuns do género.
É que o melhor estilo de Hollywood, Besson na última década só recicla, recicla, recicla.

Jorge Pereira
* escreveu e produziu, mas não realizou
** apesar de ter uma carreira no cinema desde o final dos anos 70′, foi em Nikita que a sua carreira “explodiu”

