«Saw» (Enigma Mortal) por Víctor Melo

(Fotos: Divulgação)

Uma velha casa de banho suja e imunda, paredes brancas repletas de azulejos rachados e partidos, canalizações podres, o castanho demolidor da ferrugem a escorrer pelos canos, um cadáver deitado no chão, sobre uma poça de sangue… dois homens contemplam este cenário dantesco, acorrentados, sem saber porquê… 

“Saw” é um thriller, produzido sob um orçamento irrisório, que vem ressuscitar um conceito algo adormecido dentro do género. Um bafo de ar fresco, cirúrgico no seu desígnio: arrepiar! 

Estamos perante uma excelente recriação de ambientes. Adorei o tom gélido de todos aqueles recantos sombrios, antros sádicos, escondidos nas mais variadas esquinas de L.A. 

Em termos essencialmente atmosféricos dá sempre para vislumbrar, aqui e acolá, algumas influências de “Se7en” e matar saudades desse clássico de David Fincher. 

“Saw” tem um argumento bem esboçado, intrigante, propagado num ritmo dinâmico e muito cativante, que assenta nos fantasmas da redenção humana e nas formas mais criativas de os exorcizar. E a criatividade de “Saw” parece não ter limites… 

Mas nem tudo são rosas, o filme em momentos parece perder alguma consistência, especialmente nos trabalhos de investigação, onde há alguns desfechos inócuos que acabam por retirar alguma sustentabilidade narrativa ao filme. No entanto não acho que a fragilidade desse alicerce seja significativo para colocar em risco a robustez do resto da estrutura. O arquitecto James Wan conseguiu um pequeno milagre. Com um orçamento semi-amador, transformou um filme condenado a ser lançado directamente para o mercado de aluguer, numa das maiores surpresas do ano e sério candidato aos lugares cimeiros do box office. 

Todo o filme se desenrola a um ritmo frenético, mas porque não destacar os últimos quinze, vinte minutos que são extraordinários. Repletos de tensão e sequências geniais de angústia prolongada… aquele nervoso miudinho que nos costuma deixar colados à cadeira e que nos estrangula os sentidos, deixando-nos sem reacção, inertes e à mercê do grande ecrã. 

Contrariamente ao que é normal nos meus textos cinematográficos, decidi terminar com uma pequena alusão à conclusão da fita, pelo que pedia a quem ainda não tenha visto a mesma, que se abstivesse de caminhar na direcção das próximas linhas, sob o risco de ser castigado sadicamente… 

O filme tem um epílogo aberto, que lhe assenta como uma luva. Gostei de sair da sala com o adocicado sabor da incerteza em relação ao que se seguiria: Estaria o psicopata satisfeito com as “lições de vida” que tinha perpetrado? Ou as mesmas iriam ter continuidade durante todo o tempo de vida que lhe restava? 

Eram questões que eu gostava que permanecessem sem resposta. Infelizmente já vem uma sequela a caminho…

 

Víctor Melo

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