«Vous n’avez Encore Rien Vu” (Vocês ainda não Viram Nada) por Roni Nunes

(Fotos: Divulgação)

As histórias de amor passionais muito ao gosto de Alain Resnais (veja-se alguns dos seus clássicos como Hiroshima meu Amor e O Último Ano em Marienbad) ressurgem aqui numa fusão de recursos cinematográficos e teatrais que, diferentes dos filmes citados, abrem mão de forma radical dos cenários exteriores. Mas, tal como aí, esses enredos, que exibem um arrebatamento que os liga aos histriónicos tempos do Romantismo, aparecem enquadradas dentro de uma frieza de rigorosa formalidade – levando o espectador a um distanciamento dos seus dramas.

Nesta obra, diversos atores de teatro respondem a um chamado de um velho amigo dramaturgo (Antoine d’Anthac, vivido por Denis Podalydès) recém-falecido, que deixa instruções para que eles estejam presentes na abertura do seu testamento numa mansão no interior francês. Chegados lá, são surpreendidos por um vídeo que os convida a assistir a uma nova encenação de Eurídice – uma peça de d’Anthac na qual, em diferentes momentos, estes intérpretes já participaram.

Mas este é um falso fio condutor: a história que vai tomar conta do filme não é a do amigo morto, mas a de Eurídice e Orfeu, que surge contada através de um meticuloso cruzamento entre técnicas de cinema e teatro. Aqui entra-se novamente no jogo das fantasias de amores intensos e, de alguma forma, proibidos.

Impossível não pensar no filme como uma forma de testemunho autorreferencial – bastando imaginar-se um cineasta então com 89 anos a reunir os seus amigos para uma espécie de requiem, onde eterniza a sua memória através da arte e propõe uma curiosa união dos seus protagonistas no além. Esta sensação é reforçada pelo facto dos atores fazerem de si próprios – entre os quais a sua musa de vários filmes Sabine Azéma e alguns dos grandes nomes do cinema francês, como Lambert Wilson, Michel Piccoli e Matthieu Amalric, entre outros.

Mas, se em outros trabalhos a entrada do espectador nos seus habituais jogos onde as trajetórias dos personagens cruzam-se com os caminhos da memória e da fantasia era facilitada por um conjunto de imagens belíssimas, aqui a falta destas dificulta bastante o entusiasmo. Mesmo assim é suficientemente bonito.

O melhor: é bonito o suficiente
O pior: não é fácil entusiasmar-se com a história de Eurídice 


Roni Nunes

 

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