Entre as florestas de uma região não determinada do interior da Hungria ocorre, sob as aparências de calmaria, uma violenta caçada de cunho justiceiro. Em causa estão as comunidades romanis (ciganas) do país, aqui simbolizadas por uma pequena família que se move em longas périplos para chegar ao trabalho (a mãe, vivida por Katalin Toldi), à escola (a filha adolescente, interpretada por Gyöngyi Lendvai) ou simplesmente vadiar – no caso do garoto pré-adolescente Rió (Lajos Sárkány). O filme acompanha os pormenores de suas tarefas diárias assombradas por um inimigo sem rosto que, há poucos dias, tinha acabado de chacinar mais uma família cigana das redondezas.
A rotina do trio de protagonistas serve também para a construção das suas relações sociais, sejam com os brancos (no trabalho, na escola ou com os polícias) ou com os do seu grupo étnico. Estes não aparecem nem como vítimas nem como vilões: aqui e ali, os recursos dramáticos do realizador/argumentista Benedek Fliegauf vão espalhando os fragmentos de um mundo que, se por um lado faz eco á retórica racista com a sua violência, sua inércia e seus vícios, por outro revela-se pleno de dinamismo e de noções bastante humanas de solidariedade e afeto.. A evitar um retrato miserabilista, a injustiça demonstrada no filme não deixa de ser mais flagrante por isso.
O cineasta também faz uma ligação inteligente com o desejo justiceiro da própria sociedade húngara. Num diálogo fundamental dois policiais visitam o cenário do último crime, espreitados pelo menino Rió escondido. Um deles lamenta que se tenha morto uma família de ciganos decentes e trabalhadores em vez de outra formada por criminosos. Segundo ele, isto “confunde a mensagem que se quer passar, pois demonstra ser um crime de ódio“. Ao que o outro responde: “ainda bem que estás aqui. Na próxima vez podes indicar a eles quem assassinar!“.
O vigor filosófico não acompanha as opções estilísticas, a estas alturas valendo-se de verdadeiros clichés do cinema de autor, como a câmara na mão e, especialmente, a desdramatização ostensiva de um assunto explosivo – focado através da exposição quotidiana dos personagens. Só para citar lançamentos recentes em Portugal, Beyond the Hills, de Cristian Mungiu e À perdre la raison, de Joachim Lafosse, partiam dos mesmos princípios – investigar a psicologia interior de crimes coletivos baseados em factos verídicos.
Mas Fliegauf toma a decisão acertada ao, diferente daqueles dois filmes, não escolher nenhum evento específico para basear a sua história, avisando logo no início que “não se trata de um documentário”, Neste sentido, Apenas o Vento vale-se de uma simplicidade que o torna menos obtuso que Beyond the Hills e menos refém de um tema como o de À perdre la raison” – cujo impacte dramático é prejudicada pela brutalidade extrema do crime real que o inspirou.
O Melhor: simples e eficaz
O Pior: um tanto previsível nas suas opções estilísticas

Roni Nunes

