«Elysium» por Roni Nunes

(Fotos: Divulgação)

Depois de uma das experiências mais eletrizantes dos últimos anos, o realizador sul-africano Neill Blomkamp, do poderoso Distrito 9, entra no universo dos filmes com grande orçamento.

A história foi escrita por ele mesmo e parte daquilo que teve impacto no seu trabalho anterior, a dura realidade do gueto. No início do século XXII, Max (Matt Damon) é um ex-delinquente que agora tenta se adaptar à sociedade trabalhando sob terríveis condições numa fábrica de direção tão totalitária quanto o restante da organização política e social desta Los Angeles futurista. Desde criança sonha um dia ir ao Elysium, local para onde os ricos fugiram da escumalha que superpovoa a Terra. Lá gere as forças de segurança uma impiedosa Delacourt (Jodie Foster).

Neste mundo fortemente hierarquizado o mais simples desvio é rapidamente identificado por super robôs vigilantes, que garantem julgamentos e penas sumamente rápidas. A injustiça é acentuada pela negação aos pobres do sistema altamente avançado de saúde que os ricos dispõem em Elysium e que permite mesmo a cura de todos os tipos de cancro, independente do estágio evolutivo. A obra também toca no tema da imigração.

Se, diferente do seu anti-herói do filme anterior, Blomkamp traz agora um protagonista de fundo messiânico/mártir, por outro lado ele insiste na sua descrença em rebeldes ideológicos e, se existem forças desestabilizadoras, são por razões puramente egoístas – os bandidos/comerciantes nigerianos de “Distrito 9”, o grupo de hackers/ladrões liderados por Spider (Wagner Moura, a seguir as pisadas de Rodrigo Santoro) neste filme.

Os maiores problemas deste Elysium são a sombra do trabalho que o antecede e a quantidade enorme de distopias que tem povoado o cinema nos últimos anos. No primeiro caso, a ter de trabalhar para um público mais alargado, Blomkamp opera sem o found footage e o estilo semidocumental da sua primeira obra onde, ditados por um ritmo visceral e uma brutalidade selvática em termos de ação e visual (onde se destacam os impressionantes “camarões”), conseguiu criar um ambiente de extrema violência psicológica. Diante disto, até as favelas aqui parecem demasiado limpas. Essa necessidade de agradar fica bastante explícita no uso de clichés emocionais para criar empatia, como as memórias de infância ou o muito utilizado artifício da “mãe-com-a-filha”, recurso narrativo de resto inteiramente desnecessário para justificar as motivações de Max. O filme poderia ter ganho outros contornos sem as personagens de Alice Braga e Emma Tremblay.

O caso das distopias é mais relevante. Surgido como uma espécie de perspetiva sombria e marginal da ficção científica, esse enfoque baseado na crença de um futuro dominado por forças totalitárias, crise ambiental e caos generalizado vem tomando uma dimensão inaudita desde as últimas décadas do século XX, o que só pode simbolizar o estado de espírito desesperançado do homem atual.

A história relativamente pobre de Elysium, que sem um verdadeiro twist fica refém de uma solução baseada na ação pura e dura, deixa o filme ao alcance de uma comparação negativa com outros trabalhos deste sub-género. Para isso, não é preciso retornar no tempo em mais de um ano (dos anteriores, então, nem é bom falar) para encontrar uma diversidade de produções fiéis a parâmetros de caráter distópico que trabalham de forma mais bem-sucedida alguns ou todos os seus requisitos essenciais – o totalitarismo, a miséria, o cataclismo ambiental, a injustiça social e o uso de máquinas para controlar os rebeldes.

Isso sucede mesmo no caso de filmes inferiores a este, como o fraco Dredd 3D ou o inconsistente Desafio Total (2012), trabalhos onde, no entanto, se sobressaiam uma leitura visual mais eficaz para os tormentos espirituais que pretendiam demonstrar. Quanto aos demais, são obras que alcançam resultados globais superiores, como o mais tenso e eficiente Os Jogos da Fome, a poesia sci-fi de Esquecido, o vigor da abordagem social de O Cavaleiro das Trevas Renasce (em que peso o seu conservadorismo de reminiscências fascistas) e, principalmente, Looper, com uma história mais complexa e inteligente.

Mas, apesar de como distopia não trazer nada de novo, Elysium mostra um Blomkamp fiel a si próprio tanto quanto possível, construindo um entretenimento decente sem hipotecar as esperanças de que volte a fazer um grande filme na hipótese de conseguir realizar o pretendido “Distrito 10”. De preferência com baixo orçamento.

O Melhor: em termos gerais é satisfatório
O Pior: não apresenta grandes novidades em relação a distopias recentes


Roni Nunes

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