Em países com tradições cinematográficas conectadas com a sua sociedade a comédia de costumes é dos exercícios de ficção popular mais banais. Em Portugal, onde a anemia financeira é acompanhada por um cinema completamente descompassado, seja do público alternativo, seja do comercial, esse comédia dramática de Ruben Alves aparece como um verdadeiro OVNI.
Para esse inventário dos signos mais reconhecíveis da cultura portuguesa, o realizador e coargumentista vale-se de uma história simples: a porteira Maria (Rita Blanco) e o pedreiro José (Joaquim de Almeida) vivem há 32 anos em França. Quando subitamente têm a oportunidade de voltar ao seu país com uma boa reforma garantida, parecia simples murmurar um “au revoir” e deixar a terra da torre Eiffel sem olhar para trás. Mas é aí que eles se dão conta da vasta teia de relações da qual são as figuras centrais…
Como retrato de cultura lusitana e das possibilidades que oferece a que o público se reveja no seu cinema, A Gaiola Dourada é um dos filmes mais portugueses dos últimos anos. Eventualmente ajudará para a precisão a perspetiva da distância: Alves beneficia de um conhecimento do interior, por razões familiares, mas também de um olhar externo, visto ser, ao mesmo tempo, um elemento estrangeiro ao universo que retrata.
Em relação a este ele não esquece de nada: do fado ao bacalhau, do futebol à “beatice” conservadora e com uma banda sonora que inclui “a casa portuguesa” e o “tiro liro liro”. Bem poderia ser a receita do caos. Por sorte, nesta sua obra de estreia Alves consegue desenvencilhar-se da maior parte (não de todas) as armadilhas do género – resultando num filme acessível, equilibrado e com momentos de grande emoção.
E isto porque, se o final é leve e afetuoso (há uma dedicatória aos pais, nos créditos), é no drama que A Gaiola Dourada funciona melhor – na medida em que, além das situações serem bastante credíveis, acaba por desenvolver um conflito com dimensões pungentes. A história culmina com um final belo e inventivo, onde os conflitos vão sendo resolvidos visualmente em cenas intercaladas com a apresentação de um fado cantado por Catarina Wallenstein num bar – capaz de abalar a sensibilidade do mais indiferente dos seres.
Depois deste momento inesquecível, o filme desfaz-se de qualquer pretensão e o final é o abandalhamento total. Mas, como o arraial só chega nos créditos, é de aproveitar o percurso até chegar aí.
O Melhor: uma comédia dramática sólida e socialmente conectada
O Pior: não escapa a armadilhas dos clichés das comédias

Roni Nunes

