Os ricos abastados do Oriente, Irão incluído, há mais de cem anos que gostam de mandar seus filhos estudar no Ocidente. Não raramente os resultados são bem opostos ao esperado: nas universidades do oeste esses jovens vão captar outros tipos de valores e perspetivas e a história está cheia de revoluções lideradas por esses retornados.
Não é nada disto que pretende Arash (Babak Hamidian) quando volta para seu país após 22 anos, embora fique claro logo no início que ele é incómodo para o regime. Como professor convidado de uma universidade de Shiraz, mostra filmes e livros proibidos e acaba por ter dificuldades em obter seu passaporte para sair. Em termos de vida familiar, tampouco é sua intenção ver quem quer que seja além da mãe – mas a chegada do filho do seu meio-irmão vai mudar tudo.
A começar o filme com um sequestro, o realizador estreante Massoud Bakhshi aos poucos vai construindo uma complexa teia de acontecimentos. A ligação forçada que Arash vai estabelecendo com seus parentes e os flashbacks que reconstroem o seu doloroso passado são interligadas a comentários políticos que dão conta dos tempos de Khomeini e da guerra contra o Iraque, para além do Irão imediatamente anterior à revolução verde – a onda de manifestos ocorrida em 2009 que exigida mudanças.
Ao contrário de um certo cinema de autor, feito de metáforas construídas de forma lenta, Bakhshi faz o inverso. O ritmo é relativamente ágil e, mais do que tudo, ele diz muito explicitamente aquilo que pretende: o filme traz um conjunto de signos abundantes e pouco subtis (um livro de Hannah Arendt, o bombardeio de propaganda política do regime pela rádio e televisão, os episódios de violência na rua, o cemitério dos mártires).
Paralelamente ao retrato da violência inerente ao “país das três mil guerras”, o cineasta mostra, através da “família respeitável” do título, um retrato impiedoso de uma sociedade imersa na corrupção e que substituiu a perspetiva religiosa pela ganância desenfreada bem conhecida do Ocidente.
O Melhor: a intrincada mistura de panorama histórico com drama familiar
O Pior: há pormenores na teia de relações familiares um tanto confusos

Roni Nunes

