«The We and the I» (A Malta e Eu) por Roni Nunes

(Fotos: Divulgação)

As vicissitudes dos adolescentes do Bronx cabem numa viagem de autocarro no último dia de aula, onde o veículo que segue para Barretto Point carrega mais de uma dúzia de adolescentes barulhentos e, por vezes, é tão contagiante quanto o velho rap de Young MC (“Bust a Move“) que serve de fundo musical.

E o que fazem e do que falam esses miúdos na faixa dos 16 anos, na sua grande maioria afro-americanos? Exatamente aquilo que se associa a eles: planeiam uma festa, jogam à “verdade ou consequência”, gritam, riem, discutem, falam mal uns dos outros e, obviamente, tentam transformar a vida dos seus companheiros de viagem num inferno. Por aqui, nada de histórias trágicas: a força impressionante da juventude é captada tanto no seu esplendor de energia quanto da sua mais completa futilidade. Neste passeio, onde a câmara se move do início ao fim do autocarro, desfilam jovens que muitas vezes não inspiram simpatia, mas são incrivelmente credíveis e reconhecíveis.

O olhar do realizador de videoclipes Michel Gondry, a milhas tanto das maluqueiras oníricas de O Despertar da Mente quanto da sua malograda incursão nos blockbusters com Green Hornet, é obviamente simpático: os aspetos mais extremos normalmente associados a jovens deste extrato social ficam de fora – nada de drogas nem de agressões físicas (com leves exceções). Por outro lado, de violência psicológica há bastante e não só no “capítulo um”, intitulado “bullies”: ela segue pelo segundo, designado por “caos” e chega ao terceiro, que tem o mesmo título do filme. Neste quesito, A Malta e Eu está repleto de sarcasmos, crueldades e humilhações com que só os adolescentes sabem fazer sofrer uns aos outros.

Por fim, e mais importante, está a questão da construção da identidade – conforme a indicação do título e do terceiro capítulo – e que condiciona tudo o que se assiste no filme: a personalidade de cada um e da forma de estar na presença dos outros determina as suas individualidades.

Beirando entre o realismo e o quase documental, o resultado disto é bastante divertido, por vezes emocionante e, como seria de esperar, não mantém o ritmo durante todo o trajeto. Na verdade, só mesmo com a força dos personagens e o carisma dos seus intérpretes, todos não profissionais e que levam os seus próprios nomes nos créditos, consegue-se manter o interesse num filme sem história e onde, até o final da viagem, só dois deles vão acabar por conhecer algum tipo de transformação.

O Melhor: o carisma dos jovens atores e seus personagens muito credíveis
O Pior: o ritmo nem sempre se mantém


Roni Nunes

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