Quase quinhentos anos depois da famosa carta de Pero Vaz de Caminha a anunciar o primeiro contato do Velho Mundo com os índios, o Centro-Oeste brasileiro experimenta a mesma situação na segunda metade do século XX. Xingu aborda a aventura muito particular, baseada em factos verídicos, de três irmãos que abandonam os confortos da civilização para participar de uma expedição, em 1943, que pretendia desbravar os vastos territórios virgens localizados a sul da Amazónia.
Como era de se esperar, o contacto teve consequências nefastas para os indígenas e os irmãos Villas-Boas, Orlando (Felipe Camargo), Cláudio (João Miguel) e Leonardo (Caio Blat) se tornariam os seus grandes defensores.
O pano de fundo histórico, embora não plenamente explorado, termina por ser o mais interessante do filme. A história dos irmãos Villas-Boas, para além de rica em acontecimentos que garantem uma narrativa de entretenimento (objetivo expresso da obra), também é cheia de conexões com momentos importantes, não só da história do Brasil, mas principalmente com a política governamental em relação ao índio. Os irmãos foram ferrenhos defensores de que a política mais correta em relação aos indígenas era mantê-los afastados da civilização, preservando a sua cultura – tese que esteve por trás da criação do Parque Nacional do Xingu, uma ampla reserva destinada aos índios existente até hoje.
Por outro lado, é na ficção que Xingu, realizado por Cao Hamburguer, mais perde pontos. Em termos dramáticos, o filme tem grandes dificuldades em recriar o permanente sentido de descoberta experimentado pelos protagonistas na vida real, flutuando entre a previsibilidade e a falta de conflito. Este último é o principal problema da obra, falhando em criar verdadeira emoção mesmo em cenas importantes como a epidemia de gripe levada pelo homem branco que dizima uma aldeia indígena.
Neste aspeto, onde a história mais ganha é no tom sombrio com que vai ganhando forma o drama de Orlando, num belíssimo trabalho de João Miguel, que vê todo o seu esforço pela preservação da cultura indígena posto em causa pela dolorosa constatação de que “cada vez que a civilização os toca, algo morre neles para sempre“.
Algures na fronteira entre os esforços de sedimentação do cinema comercial brasileiro – aqui com o reforço na produção da TV Globo e de Fernando Meirelles – e uma busca mínima de conteúdo e qualidade, Xingu beneficia de uma produção sem máculas, com destaque para, além do trabalho dos atores principais, a bela fotografia de Adriano Goldman.
O Melhor: a tentativa de unir aventura e um fundo histórico pouco explorado
O Pior: a fragilidade dos conflitos dramáticos

Roni Nunes

