Cloclo (alcunha derivada do nome do protagonista) é uma biografia de um grande ídolo da música pop francesa, Claude François (vivido por Jérémie Renier, de O Miúdo da Bicicleta e Potiche), que teve seu apogeu nos anos 60, mas continuou popular ao longo da década seguinte. A sua consagração definitiva deu-se quando Frank Sinatra popularizou uma canção dele em inglês – não menos do que a famigerada My Way.
Sem uma história particularmente trágica ou repleta de factos escaldantes, não deixa de impressionar a forma como, mantendo o pé quase sempre no acelerador, o realizador Florent-Emilio Siri (do drama de guerra Inimigos Íntimos) consegue contar a história do criador de My Way sem momentos desinteressantes.
Com uma abordagem da infância muito rápida e um conflito crucial (o desejo de um adolescente fragilizado pela desaprovação do pai e desesperado por ter sucesso) resolvido logo no primeiro terço, Cloclo mantém o interesse essencialmente à custa da exploração dos aspetos mais marcantes da personalidade de François, em especial a sua vaidade desmedida e o seu complexo de inferioridade. Estes traços de caráter têm efeitos decisivos nos seus relacionamentos afetivos e nas demais escolhas pessoais, de onde o seu talento para o marketing deriva também numa notória megalomania.
O conceito por trás de tudo aqui é velocidade, onde o cinema francês vai mostrando cada vez mais o que aprendeu com o norte-americano (não necessariamente bom ou mau por si) – e não é surpresa que o principal argumentista, Julien Rappeneau, venha de um franchise de ação (Largo Winch) para compor uma biografia dramática. É neste aspeto que a obra alcança o seu melhor, acompanhando a energia eletrizante do próprio François – caracterizado com um empenho impressionante por Jérémie Renier”.
Cloclo tem alguns inconvenientes para o espetador não francês, que terá certamente mais dificuldade para interagir (embora perceba) com as inovações introduzidas pelo cantor, compositor e empreendedor na cultura pop francesa: sempre atento às novidades trazidas especialmente pelos negros norte-americanos (a disco music e o funk, por exemplo) inovou também no universo empresarial.
Mesmo que hoje (e já na época, segundo os críticos que o acusavam de fazer “música para meninas” – referindo-se às histéricas “clodetes” que o seguiam por todo o lado) pareçam um tanto risíveis as coreografias e o figurino kitsch, ainda existem uns contagiantes momentos musicais, como aquele onde François assiste a um concerto de Otis Redding (Dieudonné Katende) em Londres.
Não chega a adquirir uma dimensão épica ou algum especial sentido de grandeza, até porque em vários momentos é difícil sentir o quer que seja por um personagem que se revela desagradavelmente fútil e egoísta. Além do mais, alguns momentos da história são bastante previsíveis, Mas, no todo, cumpre perfeitamente aquilo a que se propõe, retratando a trajetória de um astro que, como tantos outros, tinha a sua vida pessoal sempre condicionada e refém da atenção da audiência.
O Melhor: Jérémie Renier. A agilidade e o vigor da biografia
O Pior: alguns momentos previsíveis e o caráter do biografado, que nem sempre inspira muita simpatia

Roni Nunes

