«Passion» (Paixão) por Roni Nunes

(Fotos: Divulgação)

Uma história de ódio e vingança entre duas executivas no filme Crime d’Amour (2010), de Alain Corneau, deu asas à imaginação do veterano Brian de Palma para explorar alguns dos seus temas e, principalmente, floreios estilísticos preferidos. Para isso, virou de cabeça para baixo a história original e saiu-se com algo muito mais ambíguo, sensual… e incoerente.

O ponto de partida de ambos os filmes é o mesmo: uma mentora, Christine (em “Paixão” vivida por Rachel McAdams) e uma pupila, Isabelle (Noomi Rapace) parecem ter uma excelente relação profissional (e sabe-se lá de que outro género). Ocorre que o “trabalho de equipa” na visão de Christine consiste em ela ficar com os louros das boas ideias da tímida Isabelle, para além de ainda partilharem o mesmo amante… Nestas condições, parece óbvio que a amizade não poderia durar. E quando rompe-se, declara-se uma guerra de perseguições e vinganças onde qualquer senso de moralidade é rapidamente esquecido.

Por um lado, é certo que a versão de de Palma acrescentou um certo dinamismo à operação de vingança pura e dura do original francês. Uma das mais-valias foi a sorte que o realizador teve no elenco das atrizes principais, particularmente com Rachel McAdams. Atriz que em outros trabalhos parece francamente insípida, ela aqui aproveita as possibilidades para criar uma manipuladora sedutora e amoral, chegando a lembrar a Catherine Tramell de Sharon Stone em Instinto Fatal – filme com o qual, aliás, este tem semelhanças (a cena do elevador, por exemplo).

Sobretudo, Palma foi sempre um mestre da montagem e da referência aos clássicos, criando a partir das lições dos grandes ícones do passado (Hitchcock, em Carrie, Testemunha de um Crime e Vestida para Matar; Antonioni em “Blow Out“; Einsenstein em “Os Intocáveis“, por exemplo) alguns grandes momentos do cinema nas últimas décadas.

Em dois momentos típicos neste Paixão ele exibe aquilo que se poderia esperar do seu cinema. Um deles é a cena do ballet baseado em Debussy (“Prelúdio à Tarde de um Fauno”): onde o filme de Corneau se ficava para uma módica citação a “On the Beach“, de Stanley Kramer, Palma cria, através do uso de “split screen”, uma sequência elegante e de impacte visual – jogando com os acontecimentos que Isabelle assiste no teatro e aquilo que se passa na casa de Christine. O final é outro grande exemplo, com os cortes de três ações em simultâneo e uma excelente utilização do som a criar momentos de suspense asfixiante.

O problema é que a história do original fica amputada da sua coerência com a opção crucial do realizador, também argumentista, em sonegar uma informação que na obra de Corneau é fornecida quando um acontecimento fundamental muda o rumo do enredo. Tanto a escolha é mais curiosa ao pensar-se que se trata da substituição da regra do suspense hitchcockiano do filme francês (os personagens ignoram, mas o espectador sabe quem cometeu um determinado ato) por aquilo a que Hitchcock designava pejorativamente por “whodunit” (estilo de narrativa que o mestre de de Palma achava extremamente desprezível).

Teorias à parte, se é certo que isto deu mais mistério ao filme, permitindo ao cineasta jogar com sonhos, pesadelos e os limites entre o real e o irreal, por outro ele vê-se “à nora” para contar uma história verossímil, criando um filme que é, por todas as possibilidades que cria, extremamente frustrante.

O Melhor: as atrizes principais e a primeira metade
O Pior: os excessos e as incoerências do argumento


Roni Nunes

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