
De nevoeiro há bem pouco nesta construção visual ensolarada com que Sergei Loznitsa constrói uma abordagem cadenciada e bem pouco espetacular da guerra. De cinzento mesmo, só o espírito dos três protagonistas, às voltas com a resistência na Bielorrússia ocupada pelos alemães, na 2ª Guerra Mundial. Embrenhados floresta adentro com dois deles dispostos a executar um compatriota por traição, lidam com memórias e imprevistos depois que as coisas não correram conforme o esperado.
A primeira coisa que salta a vista neste No Nevoeiro é sua brutal economia de factos e personagens em relação ao filme anterior de Loznitsa, o impressionante e complexo My Joy. Do verdadeiro puzzle que interligava as terríveis mazelas da Rússia/Ucrânia contemporâneas à uma espécie de “anti-mito” fundador (a 2ª Guerra Mundial), o realizador escolheu umas poucas peças para trabalhar nesta sua segunda obra de ficção.
Neste sentido, o principal liga-se à personagem Sushenya (Vladimir Svirskiy), o suposto colaborador dos alemães. Enquanto os flashbacks que apresentam pequenos traços constitutivos dos seus dois companheiros mostram imagens de resistência à ocupação (embora não muito honrosas no caso de um deles), as memórias dele identificam-no como um homem em doloroso processo de perda de identidade, onde a guerra como fator criador de mudanças lhe retira o lugar que ocupou na sociedade até ali.
Uns tantos furos abaixo de “My Joy”, esta abordagem pouco física e muito psicológica da guerra resulta num filme formalmente sem falhas e rigorosamente construído. Apesar disto, tem contra si um certo esquematismo e uma mise-en-scene quase anti-naturalista de tão estática, para além da opção da abordagem dramática da história nem sempre justificar os abundantes tempos mortos.

Roni Nunes

