«Post Tenebras Lux» por Roni Nunes

(Fotos: Divulgação)

O realizador mexicano Carlos Reygadas ressurgiu no Festival de Cannes do ano passado após cinco anos de ausência com aquele que talvez seja o projeto mais sólido e dinâmico da sua curta, marcante e polémica carreira.

Menos contemplativo que trabalhos como Japón ou Luz Silenciosa e, a despeito das controvérsias, bem menos extremo do que Batalha no Céu, Post Tenebras Lux é um acumular de algumas das suas questões habituais com novas formas de as exprimir.

Movido por uma interessante narrativa não linear, a obra traz memórias autobiográficas e intercala as peripécias conjugais/sexuais/familiares de um casal da elite rural mexicana, vividos por Adolfo Jiménez Castro e Nathalia Acevedo, com a trajetória errática de um ex-adicto/alcoólico designado por Sete (Wilebaldo Torres).

O primeiro paralelo que salta a vista é com Luz Silenciosa, a sua obra de 2007 que efetivava uma espécie de “ciclo da vida” ao enquadrar um drama adúltero sob uma dimensão cósmica – onde as vicissitudes de uma existência definida pela regra (falhada) esmigalhava-se diante de da magnitude do espaço celeste. Mas lá Reygadas apresentava a sua visão da pequenez das tragédias humanas, ligadas irremediavelmente ao desaparecimento, encerrando a sua história entre belíssimos planos fixos do céu sob as ocorrências do amanhecer e do anoitecer.

Aqui, pelo contrário, tudo é movimento. A começar por uma cena de abertura alucinante, onde câmaras em rotação constante dão conta de uma espécie de génesis bíblico sob um horizonte verde e púrpura marcado por relâmpagos. Ao mesmo tempo, uma menina de dois anos vai dando nomes a coisas e pessoas, cercadas de animais (um dos seus ícones favoritos) em permanente circulação.

Adepto de batalhas silenciosas entre o bem e o mal, onde este já esteve simbolizado nas belas formas de uma atriz não profissional (Anapola Mushkadiz) em Batalha no Céu, aqui Reygadas apresenta o diabo em “pessoa”, numa animação surrealista que serve para tirar, imediatamente, o chão ao espectador. Não será a única cena: o destino final de um personagem corroído pela culpa é outro das grandes surpresas do filme.

O cineasta mexicano também remete a Luís Buñuel ao acrescer esse recurso a uma das temáticas favoritas de ambos: um ataque impiedoso aos cânones burgueses. Mas se em outros trabalhos de Reygadas essa crítica social se dava pelo choque em relação ao “bom gosto” tradicional (que incluía cenas de sexo entre obesos e até mesmo outra, em Japón, entre um homem e uma anciã!), aqui esse extrato ganha uma abordagem mais direcionada – particularmente através das suas piores incongruências, demonstradas, entre outras, pela terrível cena do espancamento (fora de campo) de um cão.

O retrato liga-se a outra sequência, também de reminiscências buñuelianas, onde o casal protagonista pratica swing num enorme espaço dividido em salas com nomes de baluartes da cultura ocidental, como Hegel – terminando por consumar o ato em outra chamada Duschamp! O mestre do dadaísmo, por sua vez, não é a última menção honrosa (e irónica): figuras da literatura russa ressurgem em conversas triviais num banquete de casamento, enquanto numa cena emocionalmente crucial, Natália assassina ao piano a belíssima “It’s a Dream”, de Neil Young. Por fim, tal em como em outros dos seus trabalhos, os elementos agressivos são matizados pelas relações familiares afetuosas, onde as crianças (aqui vividas pelos filhos do cineasta) desempenham um papel sempre importante.

Tal como em Luz em Silenciosa, todos esses movimentos tornam-se quiméricos diante da dimensão de algo maior. Assim como no seu filme de 2007, em Post Tenesbras Lux o realizador abre mão do grotesco e das bizarrices extremas (pelo menos se comparadas aos seus dois primeiros filmes) e sai-se com um filme estimulante e que, em última análise, tem o mérito de fazer o espetador navegar por territórios de certezas bastante escassas.


Roni Nunes

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