A ameaça comunista depois da 2ª Guerra Mundial não era nada desprezível e fez com que os norte-americanos corressem a socorrer aliados e inimigos para que estes não sucumbissem à ameaça vermelha. No caso japonês, essa missão não vinha isenta de um sentimento de culpa pelo uso da bomba atómica, cujo cogumelo devastador abre os trabalhos deste “Imperador” – baseado numa história verídica.
No filme assiste-se à chegada do general Douglas McArthur (Tommy Lee Jones) ao Japão após à rendição deste. Traz consigo um especialista em assuntos nipónicos, Bonners Fellers (Mathew Fox). O objetivo: determinar se o imperador Hirohito, que governou o Japão durante a guerra, teve responsabilidade no desencadear da mesma. Ao mesmo tempo que lidera investigações que terão de ser feitas no período recorde de dez dias, Fellers relembra o seu affair com uma japonesa, Aya Shimada (Eriko Hatsune).
Em termos temáticos, o filme envereda por caminhos interessantes. A reconstrução do Japão passa por uma tentativa de compreensão cultural que supera o mero olhar estrangeiro sobre um inimigo. O fato do projeto ter origem japonesa, através da produtora Yoko Narahashi (de “O Último Samurai”) ajuda bastante, deixando “Imperador” bem distante do costumeiro etnocentrismo do olhar ocidental sobre o Oriente. Aos poucos, o filme vai construindo um retrato pouco conhecido de um povo associado à eficácia e à prosperidade material – mas aqui completamente absorvido por um cego sentido de dever, lealdade e devoção.
Por outro lado, o resultado final é demasiado morno, numa obra que falha na mística e onde os ancestrais filmes de guerra fazem-lhe uma grande sombra. Em grande parte a culpa é de um argumento repleto de diálogos banais ou da notória falta deles em momentos cruciais – particularmente quando Fellers é confrontado e, como resposta, exibe um olhar vazio. A construção anémica de uma história romântica não ajuda. Quanto ao realizador britânico Peter Webber, parece que enganou-se no brilharete que teve com “A Rapariga com Brinco de Pérola”, uma vez que aquele foi sucedido pelo horrendo “Hannibal – A Origem do Mal”. Aqui a coisa corre melhor, mas ainda não foi desta que ele se revela como um cineasta a ser seguido.
Historicamente a opção principal do filme também é problemática, com o complexo tema do papel de Hirohito na guerra a ser resolvido de uma forma extremamente leviana e unilateral, pois se está a falar de um homem que, a governar mesmo que simbolicamente, ajudou a desencadear a 2ª Guerra Mundial. O antigo líder japonês aparece aqui como um imperador de contos de fadas, tendo em vista que Narahashi teve a ideia para o filme nas histórias palacianas que ouvia na infância – contadas pelo seu avô – o ministro Teizaburo Sekiya (aliás, representado no filme).
O melhor: a visão imparcial do Japão
O pior: um argumento muito fraco, condicionando o resultado do filme

Roni Nunes

