A Festa do Cinema Francês, que começou em Lisboa a 7 de Outubro e termina em Coimbra a 9 de Novembro, tem uma madrinha, a actriz Sandrine Bonnaire.
Digna de homenagem e de uma retrospectiva dos seus trabalhos no certame, Bonnaire começou a sua carreira de uma forma quase casual, quando acompanhou a sua irmã a uma audição, e acabou por ser escolhida por Maurice Pialat para “Les Meurtrières” – um projecto que não chegou a concretizar-se.
A jovem impressionou mesmo Pialat, que a convida a ser a protagonista de um filme que o cineasta há mais de dez anos sonhava fazer. Intitulado “A nos amours”, o filme era um retrato de uma adolescente em sua busca da liberdade. Essa participação foi fulgurante, tendo recebido o César para Melhor Jovem Talento em 1984.
A partir daí a actriz começa a participar em mais filmes, mantendo uma relação conturbada com Pialat, tendo mesmo recusado o papel principal em “Police”, no qual acaba por aparecer. Seguidamente protagoniza“Sous le soleil de Satan”, “Sans toi ni loi” (de Agnès Varda),
“Captive du desert” (de Raymond Depardon), ‘Joana d’Arc’ e “Secret défense” (de Jacques Rivette), “Quelques jours avec moi” (de Claude Sautet), entre outros.
Depois disso trabalhou com cineastas como Jacques Doillon (“La puritaine”), André Téchiné (“Les innocents”), Patrice Leconte (“Monsieur Hire”), Claude Chabrol (“La Cérémonie” e “Au coeur du
mensonge”), Jean-Pierre Améris (“C’est la vie”) e Philippe Lioret (“Mademoiselle”, “L’Equipier).
Em 2007 surpreende ao passar para trás da câmara, através da realização de “Elle s’appelle Sabine”, um documentário dedicado à sua irmã autista, que foi calorosamente acolhido na Quinzena dos
Realizadores, em Cannes.
Todavia, Bonnaire não abandona a sua carreira de actriz, encarnando, em 2009, “Joueuse”, um filme que marca a estreia de Caroline Bottaro.
No filme ela interpreta o papel de Hélène, uma empregada de quartos numa pensão da Córsega que repete todos os dias as mesmas tarefas. A sua vida pode ser encarada como monótona, sendo dividida entre o trabalho, o marido Ange (Francis Renaud) e a filha de 15 anos.
Hélène é uma pessoa contida, como se dentro de si tivesse um vulcão prestes a entrar em ebulição. Não é à tua que o senhor Kröger (Kevin Kline), para que ela trabalha, a aconselha a rir mais e a não olhar para as pessoas como se a sua vida dependesse completamente do que elas vão dizer.
Mas um dia tudo parece mudar. Entre uma cortina no Hotel onde trabalha, a mulher vê um casal de hóspedes americanos a jogar xadrez e fica seduzida pela imagem de intimidade do casal e pelo jogo.
O facto de a mulher ganhar o jogo parece que lhe dá uma força extra, e aos poucos ela começa a interessar-se pelo xadrez. Mal tem hipóteses, ela oferece um tabuleiro electrónico ao marido, acabando ela por perder imenso tempo a jogar sozinha, passando mesmo a ser conhecida na zona onde vive pela maluquinha do xadrez
Baseado no livro ‘La Joueuse d’échecs’ de Bertina Henrichs, ‘Joueuse’ é um filme sobre uma mulher que quer mais do que tem e que encontra no xadrez uma desculpa e uma paixão para dar alguma agitação e ânimo à sua vida metódica. Não é à toa que uma das derradeiras cenas do filme é um grito de Hélène perante o imenso mar que a rodeia, como que dizendo que a Córsega onde vive e trabalha é demasiado pequena para ela.
Com uma direcção de actores cuidada, o filme atinge o seu objectivo, sendo Bonnaire claramente o seu elo mais forte, numa interpretação carregada mais em expressões que realiza do que palavras que usa.
O seu marido Ange (Francis Renaud) executa também muito bem o seu papel, sendo um homem que tem de assistir às mudanças na sua esposa, não sendo um peão, mas um Rei que não consegue acompanhar a sua Rainha que de facto é a mais poderosa no jogo em que se encontram.
Realce ainda para a presença de Kevin Kline, uma personagem soturna e misteriosa que funciona como o grande mentor de Hélène na sua nova paixão.
E com isto tudo, Caroline Bottaro consegue uma obra muito interessante, que certamente fará muita gente pensar se o mundo em que vivem não é demasiado pequeno para eles.
A ver…
O Melhor: É mesmo o trabalho de Sandrine Bonnaire
O Pior: A filha de Hélène é um mero peão na equação.
A Base: Caroline Bottaro consegue uma obra muito interessante, que certamente fará muita gente pensar se o mundo em que vivem não é demasiado pequeno para eles… 6/10
Jorge Pereira

