Depois de “Trahir”, sobre a dissidência de um poeta face ao regime estalinista romeno, “Train de vie”, que abordava os campos de concentração nazis e ‘Va, vis et deviens’, uma aproximação à história dos judeus etíopes, Radu Mihaileanu volta a abordar as questões de identidade e do exílio neste seu ‘Le Concert’, um filme que teve a sua origem em 2002 e que começou a ser escrito posteriormente ao cineasta ter visitado a Rússia, de maneira a conhecer os músicos que iriam inspirar as suas personagens.
No filme seguimos Andreï Filipov (Alexeï Guskov), o melhor maestro de toda a União Soviética e dirigia, no período de Brejnev, a célebre Orquestra Bolshoi. Quando ele é coagido a retirar da sua orquestra os músicos judeus, ele nega-se, sendo reprimido pelo regime soviético.
Trinta anos depois ele continua a trabalhar no Bolshoi, agora como empregado da limpeza. É na sua função que ele acede a um fax que convida a orquestra Bolshoi a tocar em Paris.
É aí que ele decide juntar os antigos músicos, que sobrevivem agora com pequenos trabalhos, e vingar-se no palco do Thèâtre du Chatelet apresentando uma Orquestra de Bolshoi falsa, mas convencido que finalmente a oportunidade de uma vida chegou finalmente.
Construído com bastante humor, mas com grandes doses de dramatismo, ‘Le Concert’ acaba por ser um filme sobre pessoas a quem foi negado seguir o seu sonho devido a questões políticas. Essa coacção mudou radicalmente as suas vidas, mas no intímo todos eles acharam que o seu sonho não podia ter terminado ali. Esperançados em fechar uma página da sua vida, estes homens e mulheres lutam até à última para fazer um derradeiro espectáculo, daquelas ambições que chegam tarde mas que os marcarão para sempre.
E Radu Mihaileanu soube lidar muito bem com a história que tinha. Com engenho, ele consegue criar uma obra que nos deixa crescer com as personagens, e ao mesmo tempo nos faz sentir as suas tristezas, incertezas, fraquezas e derradeiramente as alegrias.
Um bom filme para abrir a Festa do Cinema Francês.
O Melhor: O humor e o drama estão nas doses certas
O Pior: Alguns clichés étnicos demasiado evidentes
A Base: Um bom filme, construído com bastante humor, mas com grandes doses de dramatismo…7/10
Jorge Pereira

