‘Genesis’ por Carlos Natálio

(Fotos: Divulgação)

Sinopse

Depois do sucesso internacional de “Microcosmos”, os realizadores Claude Nuridsany e Marie Pérennou regressam com GÉNESIS, a magnífica história da criação do universo e do nascimento da vida.

Um feiticeiro africano conta, como quem conta uma fábula, a história da criação do mundo, do nascimento do universo e das estrelas, aos inícios vulcânicos, a aparição dos primeiros sinais de vida, a conquista da terra. Fala do tempo, do nascimento, do amor e da morte num filme inesquecível.

Realizado por Claude Nuridsany e Marie Pérennou

Crítica

A aparente distância que a dupla francesa Claude Nuridsany e Marie Pérennou parece cultivar face ao cinema- com carreira sobretudo na fotografia na área da biologia- permite receber cada filme seu como um agradável acidente de percurso. Em 1996, já lá vão oito anos, espantaram meio mundo com uma primeira obra, “Microcosmos: Le Peuple de L’Herbe”, um documentário multipremiado por todo o mundo. Neste, davam a mostrar, sem grande pejo narrativo, um novo mundo, um universo composto por insectos e outras criaturas que habitam sob os nossos pés.

O sucesso desta obra, que muitos carimbaram como uma reinvenção do estilo documental, deu aos seus autores a oportunidade /obrigação de nova “aventura”. Quase dez anos depois, lançaram finalmente “Génesis”. Com dois anos de preparação e um mundo percorrido em rodagem, decidiram o que nas suas palavras seria “virar os binóculos ao contrário”, afirmando sobretudo a vontade de não fazer uma sequela de “Microcosmos”. Assim, o tema bem mais vasto é agora o retrato das origens da vida, respondendo a questões milenares como a dimensão do tempo, ou o crescimento, vida e morte de todos os seres vivos, naquilo que tem em comum.

Esta distância do cinematográfico que referimos inicialmente, pôde constituir (e constitui) uma vantagem na utilização de uma linguagem metafórica descomplexada. Apesar disso, era difícil não cair na superficialidade, dada a dilatação do universo entre mãos e a aparente ingenuidade em lidar com primeiras imagens. Além do que, em “Génesis” a estratégia de comunicação mudou. O que em “Microcosmos” era impenetrável e visual, aqui é contaminado pelo prosaico. A acessibilidade ao público faz-se pela palavra, ou seja, toda a sequência de imagens espectaculares é conduzida, em jeito de conto tradicional milenar, numa linguagem metafórica e poética.

“Génesis” conta assim a história do mundo, ficcionalizando o que provavelmente não o deveria ser, encapsulando a dita história em blocos superficiais, já trilhados, de uma forma ou de outra, por outras cinematografias. Seja como for, não deixa de ser curioso o facto de Claude e Marie, recusando ao Ocidente a capacidade de contar as histórias mais vitais, usarem um feiticeiro africano como fio condutor e contador de toda a saga.

Além da palavra, que aqui empobrece fatalmente a vitalidade das imagens, outros excessos, (que uma obra posterior como “La Marche De L’Empereur” usou ad nauseum) são visíveis. A banda sonora de Bruno Coulois acentua o espectáculo visual, das aranhas a dançarem nas teias ou de cavalos-marinhos em encontros românticos. Mas fá-lo quase sempre até ao ponto em que a força da natureza se transfigura para nós, em animais a macaquear uma qualquer história, em função de um monstro, aqui chamado entretenimento. Mas, dizem os autores, o caminho ficcional escolhido serve sempre um processo de modernização dos mitos, de encantamento da ciência, de recusa, apesar de tudo, de antropomorfismos. Não nos parece.

Apesar desta discrepância de meios, os pontos fortes desta “bailado musical de átomos” não se perdem. Os animais e as imagens escolhidas, como improváveis intermediários de uma tese didáctica que afirma a fluidez vital entre toda uma tribo de seres vivos, possuem toda a força que “Génesis” precisa. Capaz de nos comover, a obra não se poupa a esforços para celebrar a beleza da vida, em imagens fiéis e poderosas. O filme, também ele marca de um tempo como marcha irredutível de degradação, tem numa das imagens finais, uma anémona a esvair-se irremediavelmente na areia, uma das suas expressões mais fortes.

No início não havia nada e no final nada restará, como refere o contador. Tudo o mais é percurso. O cinema esse, podemos dizer, está em absoluto e fervilhante estado de definição para Claude Nuridsany e Marie Pérennou. 7.5/10 Carlos Natálio

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