A 11 de Setembro de 2001, o vôo 93 da United Airlines foi sequestrado por terroristas como parte do atentado que levou à queda do World Trade Center, em Nova Iorque. Os passageiros conseguiram descobrir que o vôo foi raptado e sacrificaram-se para impedir que o avião chegasse a Washington e a tragédia fosse ainda maior. O filme acompanha os 90 minutos de duração do vôo, em tempo real.
Elenco
JJ Johnson & Polly Adams
Realizado por Paul Greengrass
Crítica
Comecemos por falar um pouco daquilo que “United 93”, do britânico Paul Greengrass, não é. Não é um elogio da capacidade de sofrimento e coragem do povo americano. Não é um drama lacrimoso enxertado convenientemente num acontecimento histórico, território virgem de ficção cinematográfica. Não é certamente um expoente de entertenimento, sério ou não.
Mas então o que sobra, o que é “United 93”?
Passado o período de “recato forçado”, de luto histórico, a cinematografia norte-americana, num movimento (que tem tanto de necessidade patriótica de um povo como de filão negocial, aliás estes andam irremediavelmente ligados) lançou-se na tarefa de pincelar os trágicos acontecimentos do 11 de Setembro. Lembramo-nos agora, num aparte pouco saudável, que uma cinematografia como a portuguesa é, neste aspecto, uma espécie de contra-ponto da norte-americana, caminhando sempre numa trajectória divergente (e não convergente) face aos acontecimentos que marcam a contemporaneidade do seu contexto social e político. Falamos claro em termos tendenciais.
“United 93”, enquanto primeira obra com enfoque no 11 de Setembro, é necessariamente pioneira, uma experiência de uma memória. É desse carácter experimental, justaposto ao traço quase documentarista de Greengrass, que podem ser extraídas muitas das linhas que enformam esta obra. A seriedade de um tema quente que justifica a ausência de grandes estrelas no cast; a falta de protagonistas salientes, quer de um lado quer de outro, numa valorização do anonimato e da corresponde ascensão do acontecimento em si; os planos em constante câmara à mão como sinal de uma tensão, mas também da desorientação de uma nação que naquele dia “esteve em guerra com alguém”, são tudo disto exemplos.
Por isso, é fácil ver “United 93” como uma obra pouco cativante, como o traçar de uma conspiração subterrânea que atingiu um país no que tem de mais profundo, não se sabe bem como. Mas na verdade, é mais do que justo elogiar a coragem de Greengrass, por este murro no estômago, recusando dar ao mundo o que todos (ou quase todos) dele esperavam. Pela audácia de não explorar o que já foi canibalizado por todos os meios de comunicação social do mundo (as imagens do embate dos aviões nas torres gémeas): entenda-se, o filme delas não prescinde mas não vive delas. Pelo virtuosismo de escolher sempre o caminho menos óbvio.
O filme de Greengrass não deixa de fazer justiça ao acontecimento em si. Mas fá-lo tecendo sempre a fragilidade de todos os intervenientes: dos terroristas, tão convictos quanto receosos, dos americanos em terra (em magnifícos planos cortados das costas, das bocas, das testas) que falam, falam muito, desnorteados sem saber muito bem como lidar com tudo aquilo, e finalmente dos americanos no ar, em jeito de micro comunidade em genuína luta pela sobrevivência. Como se fosse todo o mundo a ser posto à prova, com as acções à frente das suas consequências.
Não deixa de ser curioso, de uma ironia deliciosa que, no final, após um terceiro acto (será que podemos chamar-lhe isso?) nervoso, o ecrã volte ao negro e a dedicatória seja feita a TODOS quantos perderam a vida no dia dos trágicos acontecimentos. E de um propagandismo que nunca se faz notar, rapidamente se passa àquilo que “United 93” mostra com firmeza: nunca mais ninguém vai entrar num avião da mesma maneira após o 11 de Setembro. 8/10 Carlos Natálio
Crítica
Demasiado cedo”, gritaram algumas vozes na noite de apresentação de “Flight 93”, o novo filme de Peter Greengrass, responsável tanto por blockbusters (como “Bourne Supremecy”) como por filmes mais políticos e pessoais, como “Bloody Sunday”.
E se já neste ultimo filme o realizador tinha demonstrado uma grande capacidade em contar uma história dramática (um dos piores dias da história da Irlanda) sem cair em excessos de diversa ordem, essa sua qualidade sai enriquecida com “Flight 93”, um projecto que se assemelha muito a um documentário ficcional em tempo “real”, onde acompanhamos todos os eventos ocorridos no dia 11 de Setembro de 2001.
Como tal, assistimos impávidos – mas nunca serenos, às primeiras colisões contra as torres gémeas, as dúvidas dos serviços militares e civis do que está a acontecer, a falta de meios, e as complicações em tirar do ar todos os aviões.
E não nos devemos esquecer que no dia 11 de Setembro ainda não havia Bin Laden, nem Al quaeda, nem Afeganistão, Iraque e demais. Nesse dia específico, o mundo não sabia quem “tinha declarado guerra” aos EUA, organizando assim o primeiro ataque em solo americano desde o ultra-traumático Pearl Harbour.
Mas para além de acompanharmos tensamente estes factos – como Peter Greengrass tão bem sabe executar, dá-se algum relevo ao voo 93 da United Airlines, o único que não terminou a sua rota terrorista devido à interferência dos seus tripulantes.
Neste caso, Peter Greengrass tinha uma tarefa mais complicada, pois ao introduzir pessoas numa situação extrema como esta, poderia cair no mais profundo melodrama, e mesmo tentar preencher de certa maneira especulativa o que cada um era e fazia na vida. Porém, o que conhecemos destas personagens é apenas e só o que qualquer outra pessoa no avião sabia delas, fruto de conversas casuais e resultantes dos eventos que se seguiram. E até com os terroristas Greengrass revela ter pulso, não utilizando uma visão demoníaca, ultra profissional ou de puro mercenário – elemento fulcral nos “Chuck Norris flick”, mas também não indo em torno de possíveis explicações religiosas, ou mesmo pessoais.
Mas se esta abordagem pode ser encarada como benéfica, num estilo quase reconstrutivo do dia fatídico, ao mesmo tempo levanta outras questões, como o demasiado sentido objectivo da acção. Ora, numa temática como esta, até se pode entender que Greengrass não quisesse ir mais longe em termos humanos (especialmente no campo das sensações), especialmente com a tal pressão do “ser demasiado cedo para fazer um filme sobre isto”. A questão é que nessa fuga ao coração, e o abuso da razão e objectividade, o filme perde algum fulgor, especialmente porque todos nós (nos dias de hoje) sabemos mais do que o filme mostra.
Assim sendo, e apesar desta ser uma verdadeira ode à reconstrução de um evento traumático, falta-lhe alguma essência e coração para que realmente este se torne um filme inesquecível, algo que o evento quase por obrigação exigia.
Uma última nota para o elenco deste trabalho, que devido à forma pouco profunda das personagens, não se consegue exceder em termos de qualidade, cumprindo de qualquer maneira os desígnios de quem os comandava… A ver… 7/10 Jorge Pereira

