‘Coisa Ruim’ por Jorge Pereira

(Fotos: Divulgação)

Sinopse

Uma família lisboeta recebe como herança uma casa numa pequena aldeia do interior. Com a casa, diz o povo, vem também uma maldição…

Elenco

Adriano Luz, Manuela Couto, Sara Carinhas, Afonso Pimentel, João Santos, José Pinto, João Pedro Vaz, Elisa Lisboa, Filipe Duarte, Gonçalo Waddington, Maria D’Aires e Miguel Borges

Realizado por: Tiago Guedes e Frederico Serra

Sinopse

As “heranças” recentes no cinema português têm sempre um travo amargo para quem as recebe. Que o diga Vítor Norte em o “Fascínio”, e que o diga a família lisboeta que parte para o interior de Portugal em “Coisa Ruim”.

Em ambos os filmes, os seus protagonistas terão de lidar com antigas estórias familiares, que por alguma razão afectam o presente.

Mas este “Coisa Ruim” está mais entranhado nos mitos e superstições da cultura nacional, especialmente no interior, onde os mitos, lendas e casas assombradas por vezes têm contornos rebuscados e vão passando de geração em geração.

Apesar de ser já um filho do urbanismo céptico, na terra dos meus pais, bem no centro de Portugal, fui confrontado com muitos desses contos, onde não faltava quase nunca uma determinada passagem do livro de São Cipriano, uma cobra pintada e um suposto bezerro de ouro que surgiria do interior dos montes locais. “Saloíces” dirão vocês, tal e qual como um dos jovens de “Coisa Ruim” o afirma. Mal ele sabia…

Desenganem-se porém, com esta introdução, se acham que “Coisa Ruim” é o salvador português no género fantástico, ou um produto americanizado ou profundamente oriental. É óbvio que existem diversas inspirações, mas há muito tempo que um filme nacional não era tão português na sua interioridade e naquilo que as suas personagens vivem.

Para além disso, este não é um filme de sustos, mas uma forma de descobrir o medo nas “nossas estórias” e nas “nossas gentes”. Tudo isto é ainda compensado com diálogos muito ricos, onde são frequentes os debates sobre religião, ciência e o paranormal, e como estes se ligam entre si num determinado local, onde as heranças e erros do passado nos perseguem e acompanham para sempre.

Nesse aspecto, o melhor do filme é mesmo o argumento de Rodrigo Guedes de Carvalho, bem pensado, bem estruturado e no fundo muito bem conseguido. A acompanhá-lo temos actores que carregam consigo o peso das suas personagens, e apesar de ser importante referir que todos estiveram bastante bem (mesmo!!), Manuela Couto sobressai por ser a primeira a despertar para a dura realidade e a transformar dramaticamente a sua personagem em alguém completamente abalado com tudo. Mas se falamos nestes termos, não podemos esquecer a presença de José Pinto, que encarna um padre completamente avassalador e capaz de sair dos melhores filmes de terror dos anos 70 e 80.

Com isto, “Coisa Ruim” consegue tornar-se num objecto único do cinema português, não só porque é um thriller que nos prende até ao fim, mas porque está construído com pequenos detalhes deliciosamente ambíguos, que nos dão que pensar e relembrar histórias muito semelhantes que fomos ouvindo na nossa vida.

Nesse aspecto, quem deverá sentir isso mais na pele é o público mais jovem, habituado a montagens frenéticas e sustos vendidos pelo aumento do volume nos momentos decisivos – algo típico nos filmes de terror americano. Este não é de todo um filme assim, vivendo mais pela calma e ambiente em que é vivido – apesar de ter diversas sequências onde se procura fazer o espectador dar um salto na cadeira.

Pena é, e aqui aponto aquilo que menos apreciei, que determinadas sequências não fossem mais longas, prolongando assim o terror e a tensão inerente ao eventos. Nesse aspecto, e como “anexo” fulcral, os “efeitos sonoros” estão muito bem conseguidos, sendo apenas triste ver que algo comum nos filmes portugueses, a limitação da banda-sonora, volte a repetir-se, não permitindo que o filme vá ainda mais longe no campo das sensações.

De qualquer maneira, “Coisa Ruim” é um filme que merece ser visto, não só por ser uma incursão rara na nossa cinematografia, mas porque consegue a espaços criar muita tensão e medo com aquilo que é muito nosso. A ver…6/10…. Jorge Pereira

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