‘Paradise Now’ por Carlos Natálio e Jorge Pereira

(Fotos: Divulgação)
 
 

Sinopse

Dois jovens amigos palestinianos, Khaled e Saïd, são recrutados para cometerem um atentado suicida em Telavive. Após a última noite com as famílias, sem se poderem despedir, são levados à fronteira com as bombas atadas à volta do corpo. No entanto, a operação não corre como esperado e eles perdem-se um do outro. Separados, são confrontados com o seu destino e as suas próprias convicções…

O filme realizado em Nablus traz-nos uma visão interior das vidas normais de pessoas em condições desesperadas.

Elenco

Kais Nashef, Ali Suliman, Lubna Azabal

Realizado por Hany Abu-Assad

Crítica

Dois tipos de pressupostos vêm enformando o discurso crítico sobre “Paradise Now”, a mais recente obra de Hany Abu-Assad. O primeiro prende-se com óbvias considerações ético políticas, ou não fosse uma obra de um palestiniano, nascido em Israel, que foca de perto a vida e preparação de dois bombistas suicidas para um acto de sacrifício supremo. A exposição mundial da obra (tendo passado pelos Óscares, nomeação a melhor filme estrangeiro, ou Berlim, por exemplo) tem ajudado a posicionar, perante o olhar formatado de cada espectador, a obra do lado de cá ou de lá da Faixa de Gaza. Sem negar que há um lado evidente em “Paradise Now”, o seu ponto forte não passa por estarmos perante um “manual de embelezamento terrorista” ou um “manifesto anti-terror”. Pelo contrário, é da aparente estratégia de “estar entre”, da exposição do prosaísmo que rodeia a informação, preparação e efectivação de dois jovens palestinianos ao martírio, que “Paradise Now” retira o seu olhar próprio.

O segundo aspecto, que já havíamos observado em “Farenheit 911”, prende-se com o facto de saber-se admissível ou não, valorizar uma obra pelo que representa historicamente. Essa vital discussão tão à tona na obra de Abu-Assad, entronca uma outra mais genérica (mas não menos importante) que relaciona ideologia política e ideologia estética. E trata-se de um aspecto vital também porque o filme padece de uma clareza estonteante. Na verdade, todo o esqueleto narrativo de “Paradise Now” parece querer desesperadamente marcar posições, dizer o que precisa de ser dito, reflectir sobre as questões que rodeiam o posicionamento de cada palestiniano ante o conflito. E essa clareza destilada em personagens demasiado palavrosas, essa redundância de metáforas, acaba por contaminar um argumento inteligente e mais do que tudo, agradável de seguir. De qualquer forma, percebe-se o dilema de Hany Abu-Assad, que parte para “Paradise Now” mesmo do “umbigo” de todo o conflito. É um pouco o inverso do que viveu Alain Resnais aquando da preparação do célebre “Nuit et Bruillard”. A início, o autor recusou-se a realizar o documentário, dez anos que se haviam passado desde o fim da Segunda Guerra Mundial, precisamente por achar que não estava suficientemente dentro do sofrimento que foi o principal massacre do Sec.XX. A solução que encontrou foi a da coordenação da obra levada a cabo por um sobrevivente do Holocausto, mantendo, no entanto, sempre um olhar exterior. E não nos parece coincidência que a justaposição destes dilemas, pobremente designados “autorais”, se façam entre um documentário e uma obra de ficção deliberadamente objectiva.

Seja como for, é bom perceber que “Paradise Now” não se deixou entaramelar por dilemas desta espécie. Dessa opção resulta uma obra cuja vitalidade assenta no sublinhar irónico de seres humanos a braços com um conflito político-religioso que os envolve e os transcende. E é a partir do reconhecimento da originalidade desse olhar que “Paradise Now” acaba por permitir-se, dar o que de mais circunstancial, mas também de mais adulto, tem esta guerra para nos/lhes oferecer. Como se fumar calmamente num cimo de um morro com vista para um bairro palestiniano, ou deixar um recado comezinho à nossa mãe antes de morrer, fossem antecedentes naturais de uma fé inabalável, de um posicionamento complexo (porque completo) da decisão de fazer de nós um instrumento de morte. Mesmo que nunca saibamos quem nos vem buscar a seguir. 7/10 Carlos Natálio

Crítica

O cinema hoje em dia quer-se estúpido, superficial, rodeado de temas batidos e de puro entretenimento. Quando um filme vai um pouco mais longe e questiona, ou aborda, certas questões “tabu”, criam-se polémicas idiotas por parte de fanáticos que acham que o público é idiota e que não sabe reflectir sobre os filmes que vê.

“Paradise Now” é um exemplo claríssimo de uma polémica idiota, pois ao apresentar dois homens que têm como destino serem “mártires” (ou assassinos) por uma causa, foi considerado por alguns como um ensaio pró-terrorista. Se pensarmos bem, esta questão nem é de estranhar, quando o mais mainstream “V for The Vendetta” sofreu o mesmo na pele – ainda que seja numa sociedade distópica.

Não foi assim de estranhar que “Paradise Now”, apesar de ser o favorito, tenha perdido o Oscar a Melhor Filme Estrangeiro. A pressão executada por alguns loobies foi fulcral para esse efeito, e toda a gente sabe que a Academia nunca gostou muito de polémicas., preferindo filmes com qualidade mas mais consentâneos – como “Crash” e “Tsotsi”.

Mas falando do próprio filme em si, há que antes de mais dar os parabéns ao seu realizador, Hany Abu-Assad, que colocou de lado alguns simbolismos e metáforas habituais quando se aborda um conflito que parece só chegar ao grande ecrã através de cineastas palestinos. E com isto não queremos dizer que filmes como “Intervenção Divina” ou até mesmo “Atash” não tenham o seu valor. A questão aqui é que as suas construções eram menos frontais e directas, baseando acima de tudo em paralelismos com o tom de autor, para agradar em Festival Europeu e um público mais selecto.

“Paradise Now” não é assim. Para além de ser um intenso drama e mesmo um poderoso thriller, pois consegue-nos deixar suspensos pela indecisão das personagens, o filme preenche-se com pequenos detalhes que mostram bem a “guerra” de nervos que está por trás do conflito. Nessa guerra, os “mitos urbanos” (ou talvez não) são comuns, sendo um detalhe delicioso a questão dos filtros usados nas torneiras (um verdadeiro negócio localmente), pois é “senso comum” (para alguns) que os israelitas colocam produtos na água para os palestinianos não procriarem. O aluguer de vídeos dos “mártires” (nos videoclubes) e o negócio por trás da entrada de palestinos ilegalmente no território israelita demonstra bem que há sempre alguém que ganha qualquer dinheiro com este conflito.

Mas a questão que mais parece ter incomodado algumas pessoas foi o facto de os dois bombistas suicidas serem no fundo homens, e não vilões descarados, estereotipados e superficiais – como o cinema está tão habituado a ter. Este não é um elemento novo – basta lembrar “The War Within”, mas ganha aqui uma nova forma com uma abordagem aos detalhes da vida privada de dois homens, que num momento falam no facto de amanhã irem cumprir os desígnios de Deus, e interrompem a conversa para falar de assuntos do dia a dia, como compras.

Para esta humanização das personagens em muito contribuiu a presença de uma palestina nascida em França, mas que cresceu em Marrocos. Suha, muito influenciada pelas ideias ocidentais – e mesmo sendo filha de um idolatrado líder local, não é de todo apologista dos bombistas suicidas, questionando toda a situação quer do ponto de vista religioso, como no aspecto mais terreno e que influi em toda uma população palestiniana. No fundo, ela é o expoente máximo da frase “violência só gera mais violência”, e serve nitidamente como contraponto, ou consciência de Said – um dos homens.

E é esta personagem que ainda me faz mais não entender a polémica em torno deste filme, pois Hany Abu-Assad tenta com ela – nitidamente, dar alguma cabeça a este conflito, tornando-se mais objectivo, mas ao mesmo tempo menos apaixonado.

Mas compreende-se. Se o filme como está provocou polémica, com mais coração e menos cabeça poderia ainda ser mais fustigado.

O certo é que este é um grande filme, que consegue ter uma dinâmica de thriller sensacional, sem nunca perder o rumo aquilo que é: um drama. A ver… 8.5/10 Jorge Pereira

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