
Se há tema tabu no cinema mundial, e especialmente o americano, ele continua a ser o conflito israelo-árabe. São raras as obras que o abordam, e destas a grande maioria é construída localmente; ora em Israel, ora na Palestina. Para piorar, a maioria destes trabalhos refugia-se em metáforas e mais metáforas, enquanto as obras mais terra-a-terra (como “Private”) andam perdidas em festivais. Porém, e mesmo estes trabalhos, nunca vão ao início de tudo, ou pelo menos à divisão inglesa do que seria a Palestina e o que seria Israel. No cinema, o sionismo é tabu. No cinema, os palestinos são meros resultados contemporâneos, esquecendo-se toda a construção de um ódio.
Não é nada que não estivéssemos à espera. Porém, e apesar do constante esquecimento que o cinema faz da origem deste “problema” com diversas ramificações mundias, a obra de Spielberg tem o mérito de ir mais longe que quase todas as outras, podendo mesmo funcionar como a “chave” de uma temática aberta a novos projectos no cinema.
“Munich” começa com o extermínio dos atletas judeus. Aí observamos como se processou tudo o que ocorreu, desde o rapto, às negociações, até à morte e a partida para a vingança.
Neste atentado faleceram 11 atletas, e muitos dos perpetradores dele escaparam ilesos. “Munich” acompanha a retaliação israelita, que cria um grupo de homens sem nome e rosto, financia-os e exige a morte de todos os envolvidos na acção terrorista. Cinco homens estão assim na Europa em busca de vingança, e é esse o nome do livro onde Spielberg se inspirou.
“Munich” não é de todo um filme brilhante, mas para além de alguma coragem que tem, sobrevive com a evolução das suas personagens. O foco é Avner, a personagem de Eric Bana, um homem que abandona o seu país, a sua mulher grávida, e tudo o que tinha para completar esta missão. Um a um os terroristas começam a cair, e os agentes (não oficiais) da “Mossad” – destacados para esse fim – evoluem psicologicamente de diversas maneiras. Surge a dúvida, a condição de ser judeu e até que ponto ao fazer isto não estão a ser iguais aos terroristas palestinianos?
Spielberg neste aspecto não é nada sugestivo e constantemente “carrega” o botão do quão errado é tudo aquilo. E acreditem que ele vai bem longe, não tendo problemas, por meias palavras, de mostrar que os homens da Mossad não eram diferentes dos terroristas a abater.
Convém porém dizer que à excepção de Bana nenhum outro agente é trabalhado ao pormenor, sendo a maioria deles meros figurantes que por vezes questionam o seu trabalho. Neles destacam-se pela positiva Mathew Kassovitz e Ciarán Hinds. Negativamente temos o próximo James Bond, Daniel Craig, que neste filme é completamente negligenciado.
Quem sofre com isso é o filme, pois Eric Bana teve de carregar quase tudo às costas, e não me pareceu ter estofo emocional e expressivo para isso. Relembro que este filme é dos que detém um elenco mais vasto e luxuoso em termos internacionais. Há grandes nomes ligados a pequenos papéis, sendo visíveis nomes como Yvan Attal, Mathieu Amalric e Valeria Bruno Tedeshi (todos franceses), Geofrey Rush (Austrália), Marie-Josée Croze (Canadá), Meret Becker e Moritz Bleibtreu (ambos alemães).
No que toca a papéis principais, temos o protagonista que também é australiano. Depois temos os ingleses Daniel Craig e Ciarán Hinds, o francês Mathew Kassovitz, e o alemão Hanns Zischler.
Curiosamente, e em défice, temos as vedetas americanas – vá-se lá saber porquê. Mas temos Spielberg no seu melhor, ainda que apenas a espaços. Há alguma quebra de ritmo, e aborrecimento, após os primeiros assassinatos, que depois é ultrapassado – e bem – com nova inclusões de personagens e eventos que estimulam a tensão do filme. O momento em que os predadores se transformam em presas é marcante, sendo também muito interessante o desenvolvimento da intromissão de outros serviços secretos no assunto – como a CIA e o KGB.
Mas não há nada melhor que o contacto entre o predador e a presa antes da estocada final. Aqueles breves diálogos, como o que Avner tem numa varanda com um dos alvos, é fantástico. Até parece que nada separa aqueles homens…e no entanto estão em pontos distintos da sua existência.
Por estas razões, “Munich” acaba por ser, desde “Catch Me If You Can”, o melhor trabalho de Spielberg, que finalmente tocou numa ferida que ninguém parece querer sarar, e muito menos abordar… ….


