
Sinopse
Elenco
Laura Linney, Tom Wilkinson, Campbell Scott, Shohreh Aghdashloo, Jennifer Carpenter, Colm Feore
Realizado por Scott Derrickson
Crítica
Se há um erro que se deve destacar logo à partida sobre este filme, ele não está na sua história, nos actores ou realização, mas sim na forma como inicialmente foi vendido ao público.
A Sony optou por caracterizar o filme como uma obra de terror, mudando um pouco o discurso quando viu que isso poderia limitar o seu rendimento. “The Exorcism of Emily Rose” não é um filme de terror, apesar de ter alguns elementos deste, mas acima de tudo é um drama de tribunal.
Frente a frente, e em confronto aberto, estão a ciência e o sobrenatural, dois elementos que desde que alguém disse que a Terra era redonda se degladiam sem descanso. Como resultado desta luta, temos obviamente os partidários da ciência que baseiam todo o seu conhecimento em factos, e desprezam de forma autoritária todos os desvios à sua abordagem sistémica. Quando confrontados com possíveis desvios às suas linhas (o absurdo, que Kierkegaard falava) e até aos limites do que actualmente conhecem, os partidários da ciência remetem a ausência de explicação para um estado ainda arcaico do conhecimento, abrindo portas para os que acreditam que há mais para além de factos.
Em “Stigmata”, outro filme que envolve possuídos, há uma frase de Gabriel Byrne que me marcou. Quando questionado sobre a razão porque tinha deixado de ser um homem da ciência e se tinha dedicado à teologia, o actor respondeu que precisava algo mais do que o conhecimento que os factos lhe davam. Mas não é essa a natureza do próprio homem? Questionar?
Com isto não quero aqui dizer que acredito em demónios, diabos ou até Deus. Mas não poderei eu questionar isso mesmo? Não é um pouco “quadrado” considerar que a ciência responde a tudo? Mas se ninguém a questionar, haverá avanço da mesma?
É em torno disto que “The Exorcism of Emily Rose” se baseia, tendo como principio uma história muito semelhante à de Anneliese, uma jovem católica germânica que morreu após várias tentativas de exorcismo.
Neste filme, Emily é uma jovem que começa a ter visões e comportamentos estranhos, logo após ir para a faculdade. Esses eventos são presenciados por diversas pessoas, sendo definidos pela ciência como uma doente de epilepsia com tendências para a psicose. Após várias tentativas de “cura”, nada parece resultar, seguindo a jovem e sua família outro rumo em busca de salvação.
A opção é assim um exorcismo, que infelizmente não corre como o desejado, sendo um padre posteriormente acusado de negligência pela morte da jovem.
É depois no tribunal que acompanhamos a acção, sendo frequentes as visitas ao passado da jovem e às “possessões” que foi vítima. Curiosamente, os eventos do passado nunca são apresentados como uma verdade concreta, mas abertos às duas hipóteses: problema psiquiátrico ou problema espiritual?
É porém aqui que o filme vence e se derrota ao mesmo tempo, pois se por um lado consegue criar alguma tensão, baseia os actos nos mais básicos clichés ligados a possessões e tribunais – se bem que seria difícil apresentá-los sem cair em lugares comuns.
Quem viu “The Exorcist” não vai encontrar grandes novidades nesta nova possuída. Assim, temos o contorcionismo habitual, o praguejar constante e a voz demoníaca. Depois vem a explicação cientifica para tudo, isto claro na perspectiva do advogado da acusação.
Pelo meio ficam bons indicadores deixados no campo do terror, mas muito pouco para um filme que se chama aterrorizante. Este filme é sim, um drama, com uma segunda camada paranormal que poderá agitar os crentes, mas que faz rir os que não acreditam nestas coisas.
Eu reservo a minha opinião para o purgatório, mas não posso deixar de frisar que “The Exorcism of Emily Rose” é um filme interessante que só peca em ser à força demasiado aberto e por seguir, por vezes em demasia, as linhas clássicas dos filmes de possessão e dramas em tribunal.
De qualquer maneira, e afastando todos os descrentes e homens da ciência exacta, “The Exorcism of Emily Rose” é uma obra suficientemente atraente para nos prender até ao seu final……6/10 Jorge Pereira

