“The Passion of Christ” por Nuno Centeio e Jorge Pereira

(Fotos: Divulgação)
 

 

Sinopse

O filme sobre as últimas 12 horas da vida de Cristo

Elenco

Jim Caviezel; Maia Morgenstern ; Rosalinda Celentano; Monica Bellucci; Sergio Rubini; Ivano Marescotti

Realizado por Mel Gibson

Crítica

Para um (verdadeiro) cristão, “A Paixão de Cristo” não necessita de qualquer sinopse. Os momentos do filme de Mel Gibson fazem parte das escrituras sagradas e foram baseados essencialmente no Evangelho de S.João. Estão lá recordados momentos ouvidos em inúmeras homilias na missa, lidos na própria Bíblia, ou simplesmente vistos em tantas outras produções cinematográficas ou televisivas que relatam a vida do Salvador. Antes de me alongar mais nesta crítica tenho que estabeler um parâmetro para que me compreendam algum “fundamentalismo”. Sou Católico Apostólico Romano, temente a Deus, e admito o meu facciosismo face a um filme destes. Ou seja, à partida a minha imagem crítica perante o filme será algo turva, talvez até distorcida do que realmente deveria ser. Por esse aspecto peço as minhas sinceras desculpas e aproveito para referir que, mais tarde ou mais cedo, seguramente, outros textos serão aqui incluídos com um olhar mais neutro por parte dos meus colegas.

“A Paixão de Cristo” é um documento impressionante sobre… a Paixão. Para quem não sabe, o termo “paixão” deriva do latim “patti”, que significa “sofrer”. Logo, quando se fala na Paixão de Cristo não há qualquer conotação com o termo usado no português corrente, ligado ao romance ou ás relações pessoais com outrém ou qualquer coisa. O que se quer destacar é, isso sim, todo o flagelo e sofrimento por que Jesus Cristo passou, a maneira como enfrentou a morte e que se encontra de acordo com o estatuto de Messias. Mas os sacerdotes Fariseus incriminaram Jesus precisamente pela blasfémia de se fazer passar pelo seu Salvador. E isto está tudo nos Evangelhos: A Última Ceia, onde Jesus declara aos apóstolos que aquela seria a sua última refeição juntos; Gethsemani, o sopé do monte das Oliveiras onde Cristo seria aprisionado pelos guardas do Templo Fariseu, traído por Judas; o interrogatório perante as autoridades religiosas, que o acusam de se sobrepôr ao Messias quando se designa por filho de Deus; Pedro, que renega por três vezes Jesus durante o interrogatório; a assembleia perante Pôncio Pilatos, que é forçado a lavar as suas mãos do problema (é daqui que vem essa expressão, aliás), e decreta a crucificação do Salvador; a flagelação às mãos das tropas romanas; a coroa de espinhos, sinal de escárnio quanto à sua Realeza (do Reino dos Céus); e finalmente o caminho penoso, com a Cruz, até à crucificação final.

E assim acabei por contar a história, conhecida por milhões, e retratada de uma forma tão fidedigna como impressionante. “A Paixão de Cristo” não é um filme de digestão fácil. É violento. Muito violento. Mas conforme as escrituras seria assim que Cristo teria sofrido até à sua morte, e nesse aspecto este filme conseguiu ser mais literal do que qualquer outro até à data. Outro aspecto muito interessante é, sem dúvida, o uso do aramaico e do latim no filme. A decisão poderá ter a ver, provavelmente, com o facto de o próprio Mel Gibson pertencer a uma Igreja Católica que renuncia o Concílio Vaticano II, ou seja, renuncia às missas dadas na língua de cada país, cingindo-se ao latim. Gibson pediu ao director de fotografia, Caleb Deschanel, que usasse as obras do pintor barroco Caravaggio como ferramenta para representar o mundo de então. E o resultado é soberbo. Os negros da noite em que Jesus é aprisionado, os templos e a luminosidade lúgubre das tochas, as sombras, as personificações do mal (simbolizados por uma cobra e uma sinistra mulher, a actriz Rosalinda Celentano), os trajes da época.

Depois da noite vem o julgamento matinal, com um Pôncio Pilatos muito be m r epresentado por Hristo Shopov. Depois de decretada a flagelação e posterior crucificação, o filme adquire contornos de terror, que deixarão muitos filmes “gore” envergonhados. Mas aqui entra a minha opinião muito pessoal. Nunca o sofrimento de Jesus fora tão bem mostrado, com tanta crueza, tanto sangue, provocando tanta consternação no espectador. É aqui que podemos ver o quão diferente pode ser ler na Bíblia os acontecimentos ocorridos na época, ou ver todo o acto selvagem (mas usual naqueles tempos) a que Jesus foi submetido, morrendo por todos nós, cristãos. Jim Caviezel é, sem sombra de dúvidas, a melhor figura de Jesus Cristo de sempre no cinema. Tem o porte, a figura, a cara muitas vezes pintada em inúmeros quadros ao longo de séculos. E se não sou nenhum especialista em aramaico, pelo menos não me soa a que o actor tenha falhado no aspecto linguístico. O papel de Monica Belucci é relativamente pequeno. Um papel de sofrimento, o de Maria Madalena, antiga prostituta, à medida que acompanha o calvário de Jesus junto com Maria, a virgem, mãe de Jesus (Maia Morgenstern).

Não consigo escrutinar em todo o filme qualquer sentimento anti-semita. Aliás, acho ridícula essa obsessão. E digo mais. Se não fosse todo o burburinho que alguns grupos judaicos provocaram ao longo dos últimos meses, provavelmente o filme nunca teria o êxito que alcançou até ao momento. Só por isso agradeço-lhes.

“A Paixão de Cristo” limita-se a mostrar, como nunca alguma vez fora feito, o sofrimento (Paixão) de Jesus Cristo. Um castigo que pagou para nos salvar a todos. Assim diz a Bíblia. 10/10 Nuno Centeio

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