“Carandiru” por Jorge Pereira e Cesar Daguer

(Fotos: Divulgação)

Sinopse
Numa cela da Casa de Detenção de São Paulo, o popular Carandiru, dois detidos (Lula e Peixeira) enfrentam-se num acerto de contas. O clima é tenso.
Outro detido, Nego Preto, espécie de “juiz” para desavenças internas, soluciona o caso a tempo de dar as “boas-vindas” ao Médico, recém-chegado e disposto a realizar um trabalho de prevenção à Sida na prisão.
No maior presídio da América latina o Médico depara-se com problemas gravíssimos como superlotação, instalações precárias e doenças como a tuberculose, leptospirose, caquexia, além de uma pré-epidemia de Sida.
Os encarcerados lamentam, além da falta de assistência médica, a assistência jurídica. O Carandiru, com os seus mais de sete mil detidos constitui um grande desafio para o Médico recém-chegado. Bastam apenas alguns meses de convivência para que ele perceba algo que o transformará: mesmo vivendo na situação-limite, os detidos não são figuras demoníacas. No convívio com os presos que visitam o seu consultório improvisado, o Médico testemunha a solidariedade, organização e, acima de tudo, uma grande disposição de viver.

Elenco

Caio Blat, Gero Camilo, Milton Goncalves, Nelson Machado, Maria Luisa Mendonca, Lazaro Ramos, Rodrigo Santoro, Luis Vasconcuelos

Realizado por Hector Babenco

Site Oficial

Crítica

Amado por uns, odiado por outros, Carandiru é o mais recente filme brasileiro a abordar o lado social do Brasil de uma forma directa e com muito poucas figuras de estilo que lhe poderiam conferir um cenário mais poético e desinteressado na interecção cara-a-cara com o espectador. Estamos numa das piores prisões do Brasil. O Carandiru é sobrelotado e vários problemas afectam a sua comunidade. Doenças, maus tratos, gangs de prisioneiros, tudo é visto por todos e nada é feito. São nítidamente cidadãos de segunda, mas não vamos esqueçer as razões pelas quais eles foram lá parar. Muitas delas são apresentadas como injustiças e há sempre muitas nestes locais. A janela para o mundo do crime é apresentada em Flashbacks que reconstroiem os actos e a vida dos variadissimos prisioneiros, a partir de uma única visão; um médico.

 
O confissor de serviço, e alma central no filme, é um jovem médico acabado de chegar ao Carandiru. É ele que nos vai levar neste passeio turistico por um facto da história. O massacre em outubro de 1992. Se as coisas aconteceram assim ou não, a verdade é que o filme é bastante forte. Apesar de tendenciosa (o próprio médico afirma que só ouviu a versão dos presos), esta obra é muito importante pois, como sabemos bem, nenhuma verdade é inequívoca. Esta é só um lado da questão; o lado dos presos. Mas isso acaba por ser irrelevante, a não ser que sejamos fundamentalistas na natural beatificação de alguns presos.
 
A mim não me choca, tal como não me meteu confusão ver os polícias a dizer que nada foi assim. Quem conta um conto acrescenta um ponto…e naturalmente esta obra tem muito disso. Mas este não é só um filme sobre a acção. É um filme sobre personagens e todas elas têm uma profundidade aceitável. A minha preferida é a cómica de conveniência; Lady Di (o melhor papel de sempre de Rodrigo Santoro). Mas há muitas mais. O velho Chico está prestes a ganhar a liberdade e reencontrar os 18 filhos que possuí; O “juiz” Nego Preto, líder dos prisioneiros a quem o Médico diagnostica stress; o ex-surfista ( Ezequiel) e Peixeira, um assassino impiedoso. Todas estas personagens são mais valias em Carandiru e denota-se que Babenco quis ir mais longe que o mero caso. Ele quis falar do que viveu, antes e depois. Sem ser um grande objecto artístico e longe duma “Cidade de Deus”, “Carandiru” é um interessante programa que esquece a objectividade e conta a história pelo lado que a vê. Nada de novo nos tempos que correm, em que somos informados através de uma visão…a nossa. 7/10 …. Jorge Pereira

Crítica

Talvez Carandiru seja um dos filmes mais difíceis de se ver, falar e escrever, pois existem várias versões para o grande motim – desfecho da película – mas só é mostrada uma delas. O filme foi inspirado no livro do médico Dráuzio Varella e apesar das aparentes falhas, Hector Babenco foi fiel àquele que é considerado um dos grandes livros-reportagem narrados do ponto de vista de alguém bem distante do jornalismo. O resultado disso pode ser visto por uma camada dos espectadores como algo tendencioso, principalmente ao mostrar a acção da polícia numa das últimas seqüências. De qualquer maneira este ponto de vista não pode deixar de ser considerado.

 
Babenco transforma a violência em poesia lírica mas joga o espectador dentro de um buraco desumano. Em Carandiru existem certos momentos com o seu quê de claustrofobia, que são aliviados por personagens engraçados como a Lady Di, um transexual prostituído vivido por Rodrigo Santoro que é a sensação sexual dos presos. O decorrer do filme é um tanto ou quanto lento, vê-se uma miscelânea de personagens e as histórias ficam soltas, sem encaixe. Nesse decorrer monótono o filme perde o ritmo e quem está na platéia duvida um pouco da humanidade assumida dos detentos. O mundo real e o submundo vivem muito bem casados em Carandiru, que foi o maior presídio da América Latina – até à sua implosão em 2002.
 
Hector Babenco segura até o fim a carnificina que a Polícia faz ao invadir o pavilhão rebelado. Lembra um pouco as imagens da guerra no Iraque e este final choca por ser imprevisível. Mas quem vai achando que vai ver uma repetição do “Cidade de Deus” sai da sala de cinema decepcionado. Estes são filmes opostos. 7/10 …. Cesar Daguer

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