“The Last Samurai” por Jorge Pereira e Nuno Centeio

(Fotos: Divulgação)

Sinopse

Algreen é um veterano da guerra civil americana que é contratado pelo imperador japonês para treinar seu exército ao estilo ocidental. O imperador pretende unificar o Japão e torná-lo um país preparado para as rotas de comércio internacionais. Mas Algreen é capturado e acaba por conhecer finalmente o verdadeiro sentido da palavra Samurai.

Elenco

Ken Watanabe, Tom Cruise, William Atherton, Chad Lindberg, Billy Connolly, Tony Goldwyn

Realizado por Ed Zwick

Site Oficial

Crítica

Antes de começar a falar directamente da película, tomei a opção de não comparar o filme com as dezenas de páginas do cinema sobre a temática. Eu assumo que o filme tem contornos muito semelhantes a ‘Dances With Wolves’ (versão samurai), mas o enraizamento cultural nipónico acaba por o tornar num objecto ímpar em terras, e visões ocidentais sobre esta cultura. Cada facto da história tem uma versão e digamos que esta é a ocidental.

‘The Last Samurai’ marca o regresso de Edward Zwick, um homem que constantemente apresenta filmes em que as personalidades e ideias das suas figuras centrais ultrapassam o mero dever político. Há uma interessante dicotomia entre moral e obrigação, lealdade consigo e com o poder que se jurou defender.
O filme começa num estilo já um pouco ‘batido’. Temos um combatente que vive com uma aparente glória e ao mesmo tempo com um sentimento estranho de dever não cumprido. Há uma nítida disfunção na personagem interpretada por Tom Cruise (Nathan Algren).
Se por um lado é glorificado pelos seus feitos (combater os indios), ele própio vive com os fantasmas das formas como conseguiu os feitos (mesmo cobardes). Isso logo é expresso pelo alcoolismo e nítido desprezo pelas honras que lhe são feitas. Depois vem o lado irónico- em semi-estado de loucura- da personagem. Após ser convidado para treinar as tropas do imperador japonês contra uma horde de selvagens Samurais, a personagem primeiro mostra um desprezo total por ela e depois pela sua própia vida. Ir ou não ir é igual e só dinheiro serve como incentivo (que receberá). O lado moral da personagem de Cruise, está de rastos. Na verdade é uma alma perdida no campo de batalha, onde a ilusão do dever foi ultrapassada pela obrigação e a mais profunda das confusões éticas.
Algren parte então para o Japão, onde é recebido com pompa e circustância por uma sociedade em profunda transformação. Com o país dividido, o Japão e especialmente os homens por trás do imperador vêem nos tradicionalistas samurais um perigo para o progresso dos seus próprios bolsos. O país nitidamente ocidentaliza-se e tenta literalmente se desprender dum passado de gloriosos lutadores. A espada dá lugar à espingarda e a honra perde o significado que tinha.
O poder do imperador é diminuto. Quem comanda a nação é o típico ministro/conselheiro que faz o poder seguir os passos que quer. A juventude e nítida imaturidade do imperador facilitam o processo.
Contra este estado de coisas insurge-se um homem que promete defender o imperador dos maus conselhos e o Japão dos métodos ocidentalizados que começam a ser establecidos. O seu nome é Katsumoto, a meu ver, o Último dos Samurais. Interpretado por Ken Watanabe, Katsumoto é o Samurai perfeito. Com uma imagem imponente e profunda (aquela expressão facial e o olhar são geniais), este homem é sem dúvida o actor japonês com maior potêncial desde o famoso Toshiro Mifune (conhecido pelos vastos papeis como Samurai em várias obras). A forma complexa com que lida com a situação de lutar contra o imperador e ao mesmo tempo dar a sua vida a ele – caso este a peça- é manifestamente um pesadelo para a nossa compreensão ocidental.
Como será a luta entre um homem perdido em si mesmo (Algreen), com um samurai em busca do melh or que tem de fazer para servir o seu país? É numa sanguinária e estrondosa batalha que todo o rumo do filme muda. Algreen é detido por Katsumoto (que já previra a sua chegada) e feito prisioneiro numa aldeia típica do Japão tradicional. Mudamos então de esquema. Os guerreiros viram professor e aluno e aos poucos existe um reencontrar de vida em Algreen. Para começar este terá de lidar com mais um peso na alma, nesta estranha cultura oriental. Ferido em combate, é colocado a viver com a irmã de Katsumoto, Tata, a mulher de um homem que ele matara nessa mesma batalha.
Imaginem o que é viverem e serem tratados pela mulher de um homem que mataram e que temos consciência de que ela sabe disso. ‘Ocidentalmente’ esse feito é impensável e mais certo seria a velha vingança do ‘olho por olho, dente por dente’. Aqui não. A vingança é um prato que se serve diferente e é bastante complicado encarnar noutra civilização e modo de vida ao qual não estamos habituados. Para entendermos melhor o que é isto vou falar um pouco da ‘cultura samurai’. Os Samurais eram guerreiros do antigo Japão feudal. Um pouco como na Europa, na relação entre senhores feudais e cavalheiros, os samurais primavam pela servidão. Aliás, a palavra samurai significa ‘aquele que serve’. Mas existem claras diferenças na maneira de encarar a vida, a leadade e a honra, entre este míticos guerreiros orientais (também chamados de Bushi) e os cavaleiros europeus. Primeiramente eles seguiam um código ético muito estreito (bushido) e o seu maior objectivo era cumprir bem a sua missão. Não podiam ter medo de morrer e o verdadeiro samurai devia estar preparado para perder a vida sem hesitar. Essa morte teria porém de ser honrada e com um objectivo que dignificasse a sua personalidade como Samurai.
É isto que vêmos na aldeia de Katsumoto; uma profunda viagem ao mais profundo e complexo mundo destes míticos guerreiros. A forma como isso é apresentada, ainda que ocidentalizada – pois quem narra é a personagem de Tom Cruise (um americano)- é muito bem conseguida.
Os secundários são de luxo e todos conseguem ter alguma profundidade que enriquece mais o enredo e evita um minimalismo entre as duas personagens principais em conflito.
A relação com a família, o respeito, a arte de fazer uma espada (que podemos considerar como uma extensão do Samurai), a relação com os ‘estrangeiros’ está muito bem retratada (seguindo certos historiadores). Depois vem a intensificação e aproximação de Algreen à vida que determina o espaço onde agora permanece. A intergração do americano nesta cultura tem o seu ponto máximo quando se dá um ataque de Ninjas à aldeia. Os Ninjas, na realidade, e ao contrário dos Samurais, não têm a mesma identidade de ética por trás- o bushido. No fundo são um pouco mais virados para o estilo mercenário, verdadeiros guerreiros das sombras, que geralmente eram ‘contratados’ por senhores feudais em guerra antes de uma batalha para sabotarem os planos do inimigos.
Peritos na arte da camuflagem, estes homens, a mando de um dos ministros/conselheiros do imperador, tentam diminuir o potencial de Katsumoto, mas ao invés acentuam o reencontro de Algreen consigo mesmo e com uma culltura exterior ao seu ser social.
Partimos então para um desfecho que assume contornos épicos. As batalhas e sentimentos transmitidos por todas os personagens adquirem um dramatismo e uma envolvência encantadora com o espectador . Quem entrar no espirito Samurai terá uma grande experiência emotiva a caminho do fim.
Finalizando, que este texto está enorme, há apenas a apontar algo que profundamente me irritou e que faz o filme descair num quase Hara-Kiri. O prólogo final. Neste, Hollywood ‘ataca’ e cai no erro de moralizar e tentar sentimentalizar de forma nítidamente forçada. O principio do cinema é o sugerir e um grande filme conduz-nos a uma conclusão, não nos impõe esta para atingir uma elevação artificial de justiça e consciência.. Como consequência, o intenso fulgor dramático enfraquece mas, felizmente, não morre, tais as emoções sentidas durante toda a película… 8/10 Jorge C. Pereira

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