“Bully” por Jorge Pereira e Nuno Centeio

(Fotos: Divulgação)

Sinopse

“Bully”, de Larry Clark (Kids), conta a história do assassinato de um rapaz por parte do grupo de amigos, que, perante a pressão, vão começar a acusar-se uns aos outros do homicidio.

Elenco

Brad Renfro, Bijou Phillips, Rachel Miner, Nick Stahl, Michael Pitt, Leo Fitzpatrick

Realizado por Larry Clark

Site Oficial

Crítica

Depois de um soberbo ‘Kids’, de um mediano ‘Another Day In Paradise’ e de um fraco- mas imperdível- ‘Ken Park’, estreia finalmente em Portugal ‘Bully’, mais um filme ‘maldito’ de Larry Clark.

Baseado em acontecimentos reais passados em 1993 nos EUA, ‘Bully’ conta a história de um grupo de amigos que estão fartos das atitudes de um deles e decidem ‘acabar com a sua raça’.

O curioso é que todos querem matá-lo e nenhum parece capaz de o fazer. Decidem então pedir ajuda a um rapaz (Leo Fitzpatrick – O irritante Telly de “Kids”) para o ajudar na tarefa, e vão ser bem sucedidos.

Mas para além desta história de crime, Clark volta a focar os dramas da vida de uma juventude cada vez mais fraca e sem um REAL objectivo de vida. Assim, assistimos a dramas de integração LOCAL, problemas com droga, prostituição e claro o sexo como fuga a tristezas interiores.NO leque de actores é bastante bem constituído. Temos Nick Sthal (Terminator 3) e Brad Renfro (Apt Pupil) à cabeça, mas todos estão razoavelmente bem.

NO maior problema de ‘Bully’ é que, apesar de ter um fundo de verdade por trás, não consegue fazer o espectador acreditar naquilo que está a ver. Em Elephant, de Gus Van Sant, quem assistia ao filme ficava com a sensação que não havia surrealidades no meio de uma história que se não acontecesse muitos não pensariam que existisse.

Aqui não. O filme começa bastante bem e aos poucos assume caminhos que nos retiram a confiança naquilo que estamos a ver. Mudanças repentinas, sem continuidade dramática. Por outro lado, não há jovens ‘normais’ nas obras de Clark. Todos têm um drama, um paranóia qualquer e parece que Clark só gosta de mostrar o lado horrível da vida destes. Se nas comédias teens americanas somos inundados de ‘amor e uma cabana’ e os finais são todos cor de rosa, os filmes de Clark envolvem ‘Sexo, Drogas e toca a incendiar a cabana’.

Enfim, o drama de Bully é alguma fadiga das temáticas de Clark, e mais que isso, da maneira como ele constantemente aborda os temas –quase sempre igual.

Um pouco mais sumarento que ‘Ken Park’ mas longe do brilhantismo ‘REAL’ de ‘Kids’- o que é curioso pois este é inspirado em algo verídico. …

Estranho não é? Vejam e depois digam se não acham demasiado artificial a evolução dos factos…

De qualquer maneira merece um olhadela…e acho que devia ter estreado antes do Ken Park…6/10Jorge Pereira

Crítica

Directamente do dicionário de inglês-português, “bully” significa fanfarrão, valentão (como substantivos) ou intimidar, tiranizar (como verbos transitivos). Ambos os contextos servem com perfeição o propósito do título desta obra de Larry Clark, sem dúvida um dos realizadores mais polémicos da cinematografia americana, quer se goste ou não.

Ao contrário de “Ken Park”, onde um miúdo imberbe se suicidava no início do filme (servindo o seu nome de título para essa obra), aqui a explicação não é tão ambígua. Bobby (o actor Nick Stahl, que vimos recentemente em “T3”) inscreve-se com todos os pergaminhos na palavra “bully”. A seu lado está aquele que é o seu melhor amigo, Marty (Brad Renfro que esteve, por exemplo, em “Ghost World”). Apesar de se conhecerem desde muito pequenos, Bobby exerce sobre o amigo uma tirania e goza propositadamente com ele à frente de todos, qual fanfarrão. A pressão é tal que à menor ameaça de uma relação “no rmal” entre Marty e uma rapariga, lá está o amigo para desfazer tudo num acesso de violência ou deboche. É aqui que entram os habituais artifícios da filmografia de Larry Clark: sexo, drogas, hip-hop (veículo musical escolhido como catarse, e que podemos confirmar na cena em que Marty acompanha um vídeo de Eminem). Em suma, um mundo negro para um filme-choque (será que ainda choca?) onde os pais contemporâneos dos subúrbios americanos são relevados a um plano autónomo, distante dos filhos. Esta é a principal mensagem de Clark.

Como foi em “Kids”. Como foi em “Ken Park”. E até como foi em “Um Dia no Paraíso”. Pais do mundo, olhem bem para o que têm em casa. Por trás de uma aparente normalidade, os vossos petizes podem estar a cometer AS maiores atrocidades.

Para sustentar a sua batalha, Larry Clark documentou-se muito bem desta vez. Baseou o guião no livro com o mesmo nome, que por sua vez retrata uma história verídica ocorrida nos Estados Unidos.

“Bully” é de longe melhor que “Ken Park” (não era difícil, digo eu). Em vez de recorrer ao minimalismo “circular” de uma história sem história, de uma mensagem esgotada, o realizador americano encontrou NO livro algo de mais interessante que contar. Se a primeira parte do filme revela ainda todos os tiques onanistas (ou seja, pedófilos?) de um homem obcecado pela nudez juvenil, a recta final leva-nos a um mínimo de intriga que pode levar o espectador, de facto, a se interessar.

É uma pena que “Bully” surja assim nas nossas salas, cronologicamente fora da filmografia de Larry Clark (“Ken Park” é posterior, sendo “Bully” uma produção de 2001). Numa lógica temporal correcta é claramente visível a cada vez mais aguda falta de ideias do realizador. De genial (“Kids”), a interessante (“Um Dia no Paraíso”), razoável (este mesmo a que o texto de refere, “Bully”) até à vulgaridade (“Ken Park”). Eu diria que o senhor precisa urgentemente de novos desafios.

Uma nota extremamente positiva para duas interpretações: Nick Stahl, que sem dúvida lhe serviu para mais altos vôos (como encarnar depois o personagem John Connor em “T3”), e que tem à sua frente uma brilhante carreira (veja-se a sua participação NO mesmo ano de “Bully” em “In The Bedroom – Vidas Privadas”, e antes em “A Barreira Invisível”); e finalmente Rachel Miner NO papel de Lisa, a rapariga que se apaixonará por Marty e que leva à cisão e consequente tragédia da história. Para os curiosos por fait divers do cinema, a menina foi senhora Macaulay Culkin (“Sozinho em Casa”) e durante o noivado e casamento (que durou três anos) foram acossados pela imprensa cor-de-rosa americana. Depois de divorciada mostrou todos os seus dotes físicos neste “Bully”. Mas a rapariga tem mesmo jeito. Só por eles os dois vale a pena ver o filme. 6/10 Nuno Centeio

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