“Ken Park” por Jorge Pereira, Nuno Centeio e Victor Melo

(Fotos: Divulgação)
 

 

Sinopse

Mais uma obra ‘choque’ de Larry Clark. ‘Ken Park’ começa com um jovem a estourar os miolos. Seguidamente vemos sequências como: um adolescente a fazer sexo oral à mãe da namorada; uma menina muito pudica que está sempre a citar a bíblia mas que no fundo é uma ninfomaníaca sádica; um fascinado pela asfixia-erótica que se masturba logo antes de matar os seus avós à facada e finalmente um pai alcoolizado molesta sexualmente o seu filho que dormia…

Elenco

James Ransone, Tiffany Limos, Stephen Jasso, James Bullard, Mike Apaletegui, Adam Chubbuck, Wade Andrew Williams, Amanda Plummer

Realizado por Larry Clark

Crítica

Ken Park marca a 5ª longa metragem de Larry Clark. Fotografo por excelência ( com destaque para os seus trabalhos Tulsa , Teenage Lust e Perfect Childhood), Larry volta mais uma vez a pegar na adolescência, para mostrar que esta fase da vida é bastante ingrata para uns e demasiado suave para outros.

Mas Clark não está sozinho na direcção do filme. Ao seu lado está Ed Lachman, o responsável pela fantástica cinematografia de filmes como ‘Far From Heaven’ e ‘Erin Brokovitch’.

Mas quem é Ken Park?

O filme começa em Visalia, Califórnia. Tal como em Bully, outra obra de Clark, este é o paraíso de jovens filhos de famílias disfuncionais. Um jovem galgueia passeios e ruas no seu skate enquanto escutamos um som punk, que caracteriza qualquer skatista que se preze. De repente, esse jovem pega numa arma, sorri e estoura os miolos. Ele é Ken Park.

A partir daí começamos a ouvir a história dos protagonistas do filme. O filme é todo narrado por um deles.
Mas afinal que tem Ken Park que provocou tanta discussão? O problema não não está naquilo que é apresentado, mas na forma como o é. Tudo é explicito.

Um adolescente a fazer sexo oral à mãe da namorada; uma menina muito púdica que está sempre a citar a bíblia mas que no fundo é uma ninfomaníaca sádica; um fascinado pela asfixia-erótica que se masturba logo antes de matar os seus avós à facada e finalmente um pai alcoolizado molesta sexualmente o seu filho que dormia, são cenas que definitivamente marcam o filme.

Mas valeria a pena mostrar estas situações de forma explicita/pornográfica? A meu ver não e não há qualquer acto de moralidade na minha opinião. O problema é que Ken Park é isso e pouco mais. A exploração sexual é levada ao extremo e a sensação que dá é que Clark quis chocar, mas os argumentos ficaram muito longe do que conseguiu fazer em kids, ou até mesmo em Bully. Foi como tapar os buracos na história (ou a ausência dela) com imagens marcantes…Costuma-se dizer que uma imagem é melhor que mil palavras. Aqui é o inverso. Chocou-me mais ‘Kids’ num diálogo do que Ken Park em todo o filme.

Denota-se que o que o Larry procura é mostrar algumas razões para as fragilidades – que aqui vão até ao suícidio de Ken Park- dos adolescentes, mas o que conseguiu foi fazer mais um filme sobre teenagers que não trouxe nada de novo em relação às suas anteriores obras…a não ser as cenas de sexo explícito….
Vale a pena ver como teste às suas capacidades como espectador…são raros os filmes assim…mas falta muito para chegar à qualidade das suas anteriores prestações (com excepção de Teenage Caveman- uma desgraça completa). 4/10 Jorge Pereira

Crítica

Já muito se discutiu sobre “Ken Park” e o seu realizador Larry Clark (embora muitos esqueçam a parceria neste filme com Edward Lachman). Desde “Kids” (1995) que este americano se habituou ao rótulo de realizador-choque, onde a máxima dos seus filmes é explicitar ao detalhe o que a sociedade vê como pornográfico. O consumo de drogas é um exemplo esbatido, mas a grande ra zão do circo mediático em torno de Clark é o sexo. Os genitais (masculinos e femininos), as erecções dos rapazes, a masturbação, o sémen, o sexo oral, a homosexualidade. Em “Ken Park” todos estes ingredientes estão presentes, e como muitos já afirmaram (e bem), a diferença para “Kids” é a presença dos pais, ausentes no primeiro, mentes amórficas e aconchegadas a valores distorcidos no segundo.

Enquanto “Kids” revelava ao mundo um conjunto de possíveis actores de uma nova geração (de onde Chloë Sevigny foi o expoente máximo), aqui encontramos alguns nomes habituados a estas lides, misturados com mais miúdos dessa nova geração. São os casos de Amanda Plummer, Wade Williams e Julio Oscar Mechoso.

“Kids” foi no seu ano uma grande surpresa, um murro no estômago da sociedade americana, mal habituada em não imaginar os seus miúdos nas situações descritas. Nesse aspecto, o trabalho de Larry Clark foi louvável. Mas e este “Ken Park”? Que mensagem nos pode transmitir que não tenha sido já relatada por Larry? Os pais disfuncionais? Em “Kids” não estavam presentes, mas a idéEa pairava no ar como um enjoo angustiante. Os subúrbios? “Kids” mostrava precisamente o quão similar podem ser os grandes centros urbanos, onde os miúdos se refugiavam face a uma metrópole de milhões de habitantes, como Nova Iorque. O suicídio? Em “Kids” era a indiferença, a SIDA, elementos que “Ken Park” tenta recuperar.

Resta por isso as pequenas histórias, o tal personagem fantasma de Ken Park, o miúdo que se suicida no princípio do filme. Porque ninguém se recorda dele. É mais um na teia pesada que a sociedade emaranhou. Mas pouco para fazer valer um filme. 4/10 Nuno Centeio

Crítica

Larry Clark é um realizador estigmatizado no meio cinematográfico pelo habitual recurso à exposição da sexualidade juvenil nos seus filmes.

Em todas as suas produções (“Kids”, “Another Day in Paradise”, “Bully”, “Teenage Caveman”, “Ken Park”, “Wassup Rockers”) esse elo de ligação está bem presente. Mas será esse elo o único? Numa perspectiva superficial poderá ter-se essa intuição…

Sempre que há arrojo num processo criativo, existe igualmente a propensão de etiquetar e criar rótulos. São muitos os escribas que o apelidam de pedófilo, de homossexual, de pervertido de 62 anos obcecado com rapazinhos com skates nos pés…

Não querendo entrar em caracterizações, vou apenas referir o que me agrada no cinema de Larry Clark, que é precisamente a retratação genuína da juventude americana e dos seus paradigmas comportamentais.

A camera nas mãos de Clark é impassível. Não critica, não julga, não induz… apenas documenta!

“Ken Park” foi arduamente criticado nos Estados Unidos por ser pretensioso, explicitamente gratuito, surrealista…

Considero o contrário. Talvez a realidade retratada não seja assim tão deslocada quando isso. Um dos pontos fortes da realização e da caracterização das personagens de “Ken Park” reside nesse ponto. Por mais que todas aquelas situações choquem, perturbem, se vislumbrem como estranhas e até mórbidas, simultaneamente, na conjuntura social contemporânea, são igualmente perceptíveis como algo normal e passível de estar a acontecer naquele preciso momento, nos vis recônditos de um subúrbio qualquer…

O filme, simplesmente, apresenta-nos os “esqueletos do armário” daquelas famílias todas, algo que geralmente não podemos percepcionar no seio da realidade urbana americana e no conceito “happy familly” que lhe é, tantas vezes, inerente e exaustivamente propagado pela opinião pública.

Larry Clark (mais uma vez) apresenta uma crítica social, não propriamente negativa ou positiva, mas, acima de tudo, real. Uma mera constatação fílmica, assumida e descomplexada.

Neste género especifico de filmes, agrada-me ver realizadores com coragem e audácia para retratar a realidade de forma dura e crua, sem eufemismos. Este tipo de projectos cinematográficos, encaro-os numa perspectiva documental, quase jornalística, onde acima de tudo, nos é fornecido o privilégio de, por um curto espaço de tempo, poder presenciar, sentir, viver circunstâncias e ambiguidades humanas de forma intensa, como se incorporássemos as personagens. Quando as luzes se acendem, e passados alguns minutos da projecção, regressamos à “nossa realidade” e de acordo com a mesma abrimos o espaço para a introspecção… 7/10Víctor Melo

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