Kalkitos: Um rapaz que aparenta uns 20 anos pede para jogar à bola com miúdos pequenos. Os miúdos acham estranho e perguntam-lhe a idade. Quando responde, “tenho dez”, é alvo de troça da pequenada. Afasta-se, só e condoído. Mas irá encontrar outros meninos diferentes, como ele…
Corpo e Meio: Por instinto cobre a chama instável à sua frente , o fogo consome aos poucos as lágrimas e a febre. Só depois começa o lamento. O vento frio , varre a cinza no chão e gela a sala.
31: “Esta é a pega da pancada da direita. Para a executarmos, sabendo que a bola vem para a direita, vamos naturalmente levar a raquete atrás. Com o ombro esquerdo virado para mim, que é donde vem a bola…Naturalmente, avançam o vosso pé esquerdo e vão executar a pancada”.
Remains: Tudo ameaça estalar e, no entanto, esta marcha devoradora aconteceu bem no passado. Não restam gemidos no quarto ao lado, o vento deixou de assobiar nas escadas, as partículas do ar atiram-se umas contra as outras, mas é apenas o vazio contra o vazio.
Elenco
Mariana Ricardo, Nuno Oliveira, Américo Castanheira, Maria João Teixeira, André Delphim, Patricia portela, Ricardo Gross, Hugo Faustino, João Navarro
Realizado por Miguel Gomes e Sandro Aguilar
Crítica
Miguel Gomes e Sandro Aguilar são dois nomes já incontornáveis no mundo das curtas-metragens em Portugal. O primeiro fez quatro, e prepara-se agora para realizar a sua primeira longa duração (“A Cara Que Mereces”). O segundo tem cinco curtas no currículo, e é um dos grandes impulsionadores da produtora “O Som e a Fúria” (agregada ao projecto de que falo a seguir).
Numa iniciativa sempre de louvar, ambos os realizadores juntaram-se para criar este “Dinamitem a Terra do Nunca”. Basicamente, esta obra é um conjunto de quatro curtas realizadas em 2001 e 2002. Duas são de Aguilar, e a outra metade de Gomes. É difícil encontrar um ponto de fusão entre os quatro objectos apresentados. Para harmonizar (ou não) todo o trabalho, os dois realizadores criaram propositadamente vários separadores e genéricos que complementam o filme como um todo. No entanto, qualquer semelhança entre as imagens dos filmes e os separadores será pura coincidência, ou talvez dependente da sensibilidade do espectador. O primeiro separador, logo a seguir ao genérico inicial, é um pequeno texto poético onde a guerra assombra e persegue quem o escreveu.
A primeira curta-metragem chama-se “Kalkitos”, uma encomenda dirigida por Miguel Gomes em 2002 para o festival de Vila do Conde. Os actores são André Delphim, Patrícia Portela, Ricardo Gross, Hugo Faustino e João Navarro. “Kalkitos” é uma fábula moderna, onde um rapaz se sente deslocado do resto do seu grupo etário porque tem 10 anos, apesar de aparentar fisicamente ter 20. No entanto, ao longo do conto, ele vai descobrir que há muitos outros na mesma situação.
Este filme é único em todos os sentidos. Como objecto de experimentação é filmado a preto e branco, e é cinema mudo. Mas os personagens parecem querer libertar-se dessa letargia, e a música cria ritmos e “scratches” com o movimento excessivo do maxilar dos actores quando falam. É sem dúvida um dos objectos mais interessantes de todo o conjunto.
De seguida somos transportados para novo separador, onde vagueamos oniricamente por imagens da superfície lunar.
O segundo filme é da autoria de Aguilar. “Corpo e Meio” também foi uma encomenda, desta vez para a Porto 2001, Capital Europeia da Cultura. A idéia deste trabalho (e outros) era mostrar as realidades de ambas as cidades com esse estatuto europeu naquele ano. Sandro Aguilar criou um filme pesado, sem diálogos, com laivos de genialidade nas imagens transmitidas, e uma fotografia sublime. Desde as fagulhas projectadas numa obra de um Porto em fase de estalei ro (realidade inegável de 2001), onde o personagem central (Américo Castanheira) trabalha arduamente de sol a sol. Passando depois para um plano fixo de um fogão antigo, ainda a lenha, onde o fogo consome um lenço, ou “as lágrimas e a febre”, como diz a sinopse. Um lamento de prostração a um Porto frio e velho. Mas também há imagens de beleza, embora triste, do Douro e do nevoeiro. Será talvez a melhor curta de todo o conjunto. Não admira, portanto, que tenha vencido o prémio “Onda Curta” do Fantasporto de 2001, e os prémios de melhor curta-metragem portuguesa e melhor curta-metragem europeia no festival de Vila do Conde, no mesmo ano.
No final, novo separador, mais uma mensagem (que não reproduzo tal como a anterior, para os que pretendem ver o filme), e somos levados para “31”, a última curta de Miguel Gomes neste projecto, e talvez a mais fraca desta mostra. Embora recorrendo à história do “Feiticeiro de Oz”, omnipresente como referência ao longo de todo o filme, a “história” é demasido inconsequente até mesmo para uma abstracção experimentalista.
Tudo começa com uma aula de ténis a um casal de amigos (Mariana Ricardo e Nuno Oliveira, que assumem os seus nomes na fita), e as frases automáticas do professor que demonstra a maneira certa de bater numa bola com a raquete. Depois temos várias chamadas de atenção moralistas ao longo da curta-metragem. Um miúdo cigano tenta agarrar uma bola, mas é afastado com “petardos” lançados pelo Nuno. Obviamente que a coisa não fica por aqui, e o ciganito vai buscar os amigos.
Depois temos algumas referências muito óbvias ao feiticeiro de Oz. Um trabalhador que os vai obrigar a dar uma grande volta para devolver o carrinho com as bolas da aula, e que leva vestida uma t-shirt do filme, ou o próprio trajecto em sim, metáfora ao caminho de ladrilhos que Dorothy, no original, tem que percorrer. No princípio e no fim somos contextualizados com a realidade portuguesa do 25 de Abril.
Embora, como disse, creio tratar-se do filme menos conseguido dos quatro (opinião como todas altamente subjectiva), venceu o Gecko Award do Festival de Cinema do Texas, em Austin, para melhor curta metragem e melhor montagem, para além de uma menção especial do júri no Festival de Vila do Conde.
No final, e após mais um separador da autoria dos dois realizadores, Sandro Aguilar brinda-nos com o seu “Remains”, uma obra que, como o próprio admite, é um ponto de chegada ou de partida. Onde as outras três curtas se definiam como percursos, aqui encontramos o seu final ou o seu princípio. Minimal, vazio, desconstruído, “Remains” é um testemunho de isso mesmo. Restos, matérias, desagragações e decomposições.
Em jeito de conclusão, “Dinamitem a Terra do Nunca” prova que “nunca” é mesmo uma palavra inexistente no dicionário destes dois realizadores habituados à experimentação. O que falha aqui é a colagem, o ritmo, a tese de viagem mal amanhada para tentar justificar uma sequência lógica aos quatro filmes. Fora isso, há pequenas pérolas aqui e ali que merecem uma visita.
5/10 Nuno Centeio

