“Il Est Plus Facile Pour Un Chameau” por Nuno Centeio e Jorge Pereira

(Fotos: Divulgação)

Sinopse

Federica é rica, muito rica. Este privilégio impede-a de lidar com a vida diária como um adulto. O seu namorado está pronto para começar uma família, quando o amante anterior aparece inesperadamente.
A sua família é normalmente desligada da vida real. O relacionamento entre membros é desestabilizado pela morte do pai.
Oprimida pela aproximação da herança, pelos seus relacionamentos com as pessoas ao seu redor e pelo peso assombroso da culpa, Federica procura conforto no imaginário. Sonhos onde a realidade se torna perfeita e maravilhosa…

Elenco

Valeria Bruni Tedeschi, Chiara Mastroianni, Jean-Hugues Anglade, Denis Podalydès, Lambert Wilson, Roberto Herlitzka

Realizado por Valeria Bruni Tedeschi

Site Oficial

Crítica

Valeria Bruni-Tedeschi é actriz há 17 anos. Esta francesa, nascida em Itália e permanentemente dividida entre os dois países, começou a sua carreira em 1986 com o realizador Patrice Chéreau, no filme “Hotel de France”. Para os mais curiosos nestes fait-divers, acrescento que a senhora é irmã da ex-top model Carla Bruni, agora convertida à música com um CD assombroso ainda sem edição no nosso país. Servem estes dados para referir que estamos a falar de uma família com dotes artísticos provados. Por isso não é surpresa que Valeria não se tenha ficado pela interpretação, progredindo com cautela no mundo da realização e dos argumentos (escreveu em conjunto com Mimmo Calopresti a história de “La Parola amore esiste”).

A sua estreia de fogo chega agora com “Il est plus facile pour un chameau…”, uma obra distante do registo cómico e descomprometido que podemos ver em Portugal no último “Ah! Si J’étais Riche”. A Valeria deste filme é uma mulher no intervalo dos trinta, extremamente rica e de uma família italiana que emigrou para Paris por causa das Brigadas Vermelhas, que ameaçavam de rapto todos os miúdos da alta sociedade de então. Valeria interpreta Federica, que de tanto dinheiro, não consegue viver como o resto das pessoas. Ou seja, estabelecer um compromisso forte com o seu namorado de longa data (que mora em outro apartamento e não gosta de ricos), ter filhos, emancipar-se profissionalmente sem a ajuda da poderosa família e de toda a abundância que a rodeia.
A situação é agora ainda pior desde que o seu pai se encontra na fase terminal da vida, acamado num hospital. Os restantes familiares também não ajudam. A irmã (Chiara Mastroianni) nunca se deu bem com o pai, e quer meter as mãos ao dinheiro o mais rapidamente possível. O irmão Aurelio (Lambert Wilson, o delirante “Merovingian” de “Matrix Reloaded”) é um estroina que dedica todo o seu tempo a fazer voltas ao mundo nos dois sentidos. A mãe é uma pessoa passiva, alienada do resto do mundo, sem nunca ter experimentado a pobreza e o trabalho. Aliás, Nunca nenhum deles soube o que era trabalhar pela necessidade de sobreviver, e todos visitam regularmente o psicanalista.
No seu pequeno mundo, Federica vê-se também confrontada com o reaparecimento de um antigo amante (Denis Podalydès). Sem capacidades de enfrentar a realidade, decide criar as suas próprias fantasias onde tudo corre bem, e até os seus possíveis raptores em Itália, quando pequena, são convidados para a cena de jantar em casa com a família.
Federica recorre com insistência a um padre, como maneira de efectuar uma purga a todos os seus males, mesmo aqueles que o sacerdote não consegue tratar. É neste momento, aliás, que o padre refere a frase chave do filme: “É mais fácil um camelo passar NO buraco de uma agulha do que um rico ganhar o Reino dos Céus”.
O filme é demasiado longo para tão pequenos dilemas, mas consegue passar com sucesso a mensagem: nem todos os ricos são fe lizes. Mais. Muitos gostariam de ser pobres. Mas Valeria, talvez por ser esta a sua primeira obra, perde-se um pouco nos seus objectivos, entra em demasiados devaneios e fantasias algo simplistas, aborrecendo o espectador quando este já passou o limite do entendimento no filme. Tecnicamente não vamos encontrar nada de inovador, mas o final, embora sem surpreender, redime a excessiva abstracção de um contexto demasiado transbordante. 5/10 Nuno Centeio

Crítica

Recheado de dezenas de pequenos sketches, ‘ É mais fácil um camelo’ é uma frustrante primeira obra da actriz Valeria Bruni-Tedeschi.

Desinteressante, mal montado e extremamente rico em filosofias de palavras soltas, o filme cai constantemente num vazio narrativo como se se tratasse de uma colecção de peças de um puzzle, todas no sítio errado.

É curioso perceber que este filme foi galardoando em Tribeca como a ‘Melhor Primeira Obra’. Este prémio remete-me para o filme de Woody Allen ‘Hollywood Ending’ em que se satirizava os festivais europeus e o seu público por apreciar a obra maldita de Allen cego.

É mais fácil um camelo’ é provavelmente a melhor resposta europeia a esse filme e ao prémio que ele conquistou nos EUA. Tentar passar mensagens como ‘os ricos não são felizes’, ‘por vezes até podiam ser pobres’, ‘a sua vida é oca’ são o pão nosso de cada dia na cinematografia mundial.

O problema é que Tedeschi procurou mostrar isso de forma pretensiosa e quando as fracas personagens não conseguiram transmitir esse sentimento nas suas performances só houve uma coisa a fazer: tornar isso visível em diálogos directos e descrições de fortuna e estilos de vida no mínimo vulgares e ‘clichéticas’.
Pelo meio temos a actriz Valeria Bruni-Tedeschi, que cumpre muito bem o papel de mulher deslocada do mundo e sem qualquer rumo.

Numa mistura explosiva de passado com presente, real com irreal, o filme perde-se em preciosismos bacocos que só enchem a película de inoperância estrutural.
Um filme fraco e que sinceramente deverá ser lembrado pela actriz, agora realizadora, como forma de escapar a erros (futuros) demasiado primários na procura do ‘artístico’…
A evitar…
2/10 Jorge C. Pereira

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