
Um filme que aborda de forma explícita e crua, o universo perverso dos “scoutmen”, aqueles que sem problemas aliciam em plena rua as raparigas com falsas promessas de emprego bem remunerados, ou apenas de dinheiro fácil em bares que escondem, afinal, a entrada para o submundo da prostituição, dos filmes pornográficos para adultos e da rentável indústria do sexo.
Realizado por Masato Ishioka
Crítica
“Scoutman”, ou como surge nos créditos iniciais “Pain”, é daquele género de filmes robustamente feios, “Hand Made” e que ultrapassa as suas próprias barreiras, descaindo num enorme documentário fictício sobre a evolução de dois jovens “em fuga”, na sociedade japonesa.
Logo à partida são-nos apresentados dois mundos. De um lado temos um meio ingénuo, de dois miúdos que aparentemente fugiram da sua terra natal e que tentam agora prosseguir a sua vida numa gigantesca cidade. Como seria de esperar, apenas esta cidade é filmada directamente e apenas imaginamos através da ingenuidade das personagens que provém de um mundo ligeiramente diferente e mais “pessoal”. Esta mega cidade é naturalmente carregada, ou mesmo, caricaturada como perversa e repletamente dominada por um capitalismo selvagem que faz até algumas mulheres e jovens aceitarem prostituir-se para terem uma peça de roupa, ou mala de marca. Há um momento muito interessante no que toca a este último aspecto. Um grupo de miúdas aceita prostitui-se (ainda que seja apenas meros apalpões- o termo mais correcto talvez seja “acompanhantes”) para terem dinheiro para uma mala Luis Vitton, ou um vestido de uma marca famosa. Uma delas acentua mesmo que a sua mesada não chega para tudo.
Por outro lado, e talvez seja a peça unificadora do filme, existe um ponto que reteve maior abordagem. Muitos de vocês certamente já foram abordados na rua por uns senhores que vos querem vender férias, ou seguros contra tudo ou mesmo para responderem a um mero comentário. Ora aqui as coisas são um pouco diferente e o que nos surge no ecrã são homens que tentam recrutar mulheres para a indústria do sexo, mais propriamente o negócio dos filmes pornográficos.
Quem tem acesso a filmes asiáticos (na generalidade e não só pornográficos) e à internet sabe perfeitamente que o Japão é dos países com uma cultura mais aberta em relação ao sexo. Enquanto na Europa e na América o cristianismo beatificou o sexo como algo apenas digno para a procriação, na Ásia, e especialmente no Japão, o sexo é considerado algo perfeitamente normal e digno até de celebração. Ainda no outro dia vi uma pequena peça jornalística sobre uma cidade japonesa que realiza uma festa em favor da fertilidade. Ora nesta festa, os homens carregam literalmente (que nem nas procissões, com gigantescos pénis , como se de Deuses se tratassem. Seria isto possível numa região cristã?… Eu não estou a falar de uma festa, ou mega orgia. Estou a falar de uma cidade inteira se reunir para fazer uma procissão onde são carregados pénis gigantes, enquanto nas ruas as crianças e mulheres se deliciam com chupa-chupas com formato fálico?… Acho que não íamos encarar isso muito bem. Como tal, a maioria das situações apresentadas no filme nós consideramos perversas. É uma questão de cultura. Taras em ser espancado, com pés, com menores de idade (vestidas de colegiais), o vulgo hentai – onde por vezes diabos com 7 pénis penetram as raparigas- são aberrações para a grande maioria das pessoas. Para eles também, mas o comércio desse género de vídeos é um verdadeiro negócio em terras asiáticas, enquanto nos países cristãos creio ser mais restrito a um chamado underground da indústria do sexo. Quando vemos na película um tipo que se vêm enquanto leva chutos nas partes baixas não deixamos de mandar uma gargalhada, como em “Secretary” na maioria das vezes.
Ora, os dois jovens (Atsushi -Hideo Nakaizumi- e Mari – Miku Matsumoto) vão conhecer u m pouco desse mundo. Atsushi sente-se fascinado com o trabalho dos Scoutman’s e decide experimentar. Entretanto assume uma relação muito peculiar com uma ex-vedeta do cinema pornográfico, agora em completa queda de popularidade. O “engraçado” é que ela é casada e o marido não sabe da sua fama, inicialmente. Já Mari é uma mulher com alguns princípios básicos contra a prostituição e vagueia pelas ruas vendendo bilhetes para festas em discotecas. Mas nem sempre será assim. Há um momento em que tudo se transforma e ela decide aceitar um trabalho de “acompanhante”. Eu não quero “atacar” ninguém, mas desatei a rir quando vi que existe uma espécie de acompanhantes que leva os homens ao Karaoke. Hilariante (é aí que surge a tal tara do levar chutos nos genitais).
As personagens vão assim progredindo nas suas carreiras e naturalmente que quanto mais se tem, mais se quer. Aos poucos os jovens vão perdendo a sua identidade e assumindo destinos opostos e o mais curioso é que este determinismo espacial é abordado de forma fílmica muito despreocupada e pouco rebuscada.
Com mestria, mas pouco dinheiro, se consegue fazer filmes muito interessantes e “Scoutman” é um bom exemplo. Descubram-no quando puderem e vejam como as pessoas mudam consoante as necessidades que têm. O sonho por vezes vira pesadelo, e este não é apenas um caso japonês. Veja-se Lilya para sempre, ou até Mulholland Drive. A diferença está no final. Aqui todos perdem ( a sua essência) e porém vencem, i.e.(sobrevivem ao “sick world” em quem estão). 7/10 …. Jorge C. Pereira

