Críticas Indie Lisboa: ‘Bad Lieutenant: Port of Call New Orleans’ por Jorge Pereira

(Fotos: Divulgação)

Apesar de se estabelecer como um “remake” do já clássico – e para mim o melhor trabalho de Abel Ferrara – de 1992, “Bad Lieutenant: Port of Call New Orleans” é uma obra que difere tanto do original que nem se devia fazer comparações.
A questão é que de uma maneira ou de outra, pensando em modelo “remake”, ou em filme isolado em si, este é um trabalho que prima mais pela caricatura e surrealidade, que propriamente num trabalho digno de dar uma real atenção.

Nesta fita seguimos o tenente Terence McDonagh (Cage) no auge da sua carreira, tendo sido promovido por actos de heroísmo. Mas com os louros vieram também os problemas, inicialmente caracterizados por ligeiras dores nas costas, de tal maneira que só com analgésicos ele se conseguia mexer. A partir daqui, as dores servem de desculpa para uma escalada na hierarquia das drogas pesadas, atingindo o policia o nível da cocaína, heroína e mesmo “crack”. À medida que avança na sua dependência das drogas surgem os maus hábitos, que vão desde o jogo ilegal, à corrupção, ao tráfico de influências e até algumas acções inseridas na esfera da molestação sexual.

Herzog, conhecido por frequentemente – em mais de 40 anos de carreira – misturar elementos surreais no meio de ambientes profundamente reais, caminha então com a sua personagem numa intensa e alucinada viagem aos infernos, onde cada passo que Cage dá leva-o a afundar-se mais numa imunda vida de crime – estando ele sempre, porém, do suposto lado da lei.

O problema é que se analisarmos profundamente este trabalho, não existe em tempo algum uma real crença nas personagens e eventos. No fundo tudo parece demasiado estranho ao espectador, e nem o esforço de Cage – que cria uma personagem tão bizarra como odiável – consegue dar ao filme um interesse superior.

Nesse aspecto, o filme original era muito mais poderoso. Primeiro porque tinha um crime moralmente execrável e que atingia quase todos os espectadores. De seguida era muito mais difícil simpatizar com Harvey Keitel e a sua abominável personagem. Aqui é o contrário. Cage é tão caricatural e “overacted” que nunca o levamos muito a sério. Já o crime ocorrido não é tão intensamente explorado e passa mesmo para segundo plano no meio de tanto Nicolas Cage.

O resultado é um filme fraco, com detalhes muito interessantes e uma espiral tenebrosa de pessoas corrompidas moralmente, mas que nunca, mas nunca, nos consegue prender e nos fazer pensar no que assistimos.

 

A Base: Pensando em modelo “remake”, ou em filme isolado em si, este é um trabalho que prima mais pela caricatura e surrealidade, que propriamente num trabalho digno de dar uma real atenção e de envolvência. 5/10

O Melhor: Os detalhes, como a cena em que Cage observa umas iguanas num plano fechado e claustrofóbico que nos demonstra a neurose da personagem

O Pior: Eva Mendes, o pai de Cage, um Val Kilmer perdido neste filme. Tudo é acessório no “overacting” de Cage

Jorge Pereira

 

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