Estou apaixonado. Dias depois de a ter visto não consigo tirá-la da cabeça. Lembro-me perfeitamente da primeira vez que a conheci. Na escuridão de uma sala de cinema, ela reluzia com um brilho inescapável. Sublime, perfeita. Tinha aquela capacidade de me entrar pela alma dentro e segurar o meu coração nas suas mãos. Não dizia nada que não fosse a mais pura e directa verdade, sem no entanto deixar que isso a tornasse cínica e amarga com a vida. Estou apaixonado e nunca a vou esquecer. Chama-se ‘Barney’s Version’ e é uma obra cinematográfica absolutamente encantadora.
A história, baseada num livro de Mordecai Richler, é enganadoramente simples. Trata-se de uma viagem por três décadas da vida de Barney Panofsky (Paul Giamatti), uma vida marcada profundamente pelo apoio do seu pai Izzy (Dustin Hoffman), pela tempestuosidade do seu melhor amigo “Boogie” (Scott Speedman) e por Miriam (Rosamund Pike), a sua terceira mulher e o amor da sua vida, que conheceu… no dia do seu segundo casamento.
O que dizer quanto ao trabalho dos actores? Bem, para começar, Paul Giamatti é um deus na terra. E Dustin Hoffman é o rei deles. Giamatti encarna de forma genial a alma de um ‘loser’ crónico que se atira de cabeça para a melhor relação da sua vida, sempre com o amparo do seu pai, um polícia judeu reformado. Todas as cenas em que ambos aparecem juntos deviam ser dadas em aulas de expressão dramática como a mais refinada representação da cumplicidade. Já Rosamund Pike consegue tornar imediatamente óbvia a razão para o modo fulminante como Barney se deixa apaixonar. E nós com ele.
Realizado por Richard J. Lewis, com argumento de Michael Conyves, que contam no seu currículo com pouco mais que uns episódios do CSI e alguns filmes para televisão, este filme consegue um equilíbrio notável entre o humor sarcástico e a verdade emocional, entre a mais épica felicidade e a mais deprimente tristeza. Um filme sem um único ‘frame’ descartável, sem um único momento que não seja genuíno. Uma obra que nos deixa a sair da sala com os corações cheios de doses igualmente generosas de esperança e decepção, com uma pergunta irremediavelmente presa no nosso cérebro: o amor é tudo, mas será que chega?
O Melhor: O modo como este filme nos retira as defesas com piadas para depois nos “atacar” com a verdade. Com tudo o que esta tem de bom e de mau.
O Pior: Saber que vou exigir o mesmo nível de perfeição de qualquer filme que veja nos próximos tempos, algo que é altamente improvável, senão mesmo impossível.
A Base: “O que dizer quanto ao trabalho dos actores? Bem, para começar, Paul Giamatti é um deus na terra. E Dustin Hoffman é o rei deles”…
| Pedro Quedas |

