‘I’m Still Here’ por Jorge Pereira

(Fotos: Divulgação)

Uma das primeiras coisas que saltam à vista em “I’m Still Here” é que as razões apresentadas por Joaquin Phoenix para abandonar a sua carreira de actor, para se tornar um rapper, era o facto de ele mostrar como realmente era. O engraçado é que depois da sua transformação, todos à sua volta não são o que eram, pois seria impossível perante as câmaras de Casey Affleck não ser mais do que condescendente ou nem sequer julgar a atitude do actor.

 Veja-se a cara de Mos Def, de P. Diddy ou Ben Stiller perante um Joaquin Phoenix transformado numa pessoa desajeitada, de cabelo sujo e desgrenhado, barba grande, óculos escuros  e uma atitude de quem fumou um quilo de erva. É nítido que todos querem acordar Phoenix do pesadelo em que se tornou, mas não sai mais nada das suas bocas a não ser um estranho “ok”.

O outrora actor agora é um rapper sem jeito que maltrata frequentemente os seus assistentes. Consome drogas, telefona a prostitutas e escreve letras muito desajeitadas, sendo um fracasso como cantor, mas um sucesso como estrela decadente.

Porém, tudo não passava de uma farsa, um hoax do novo milénio que deu  facilmente a Phoenix o papel da sua vida, ainda que não seja reconhecido por isso. A certa altura neste documentário, há um newsflash cor-de-rosa em que se questiona se realmente nos importamos com a mudança do actor. No fundo, todos nós ficamos surpreendidos, mas no mundo das estrelas tudo é possível, e a decadência de um artista é a capa de jornais do dia a dia. Se nos importamos realmente? Não, obviamente.

Mas se o papel de Phoenix na vida real parece agora um assombroso feito, no documentário em si isso não é tão preponderante como isso. No fundo, este filme estende-se demais, mostra demais, e adormece o espectador com a exaustividade de alguns momentos. Não é assim de estranhar que o melhor e mais credível de Phoenix não surja nas cenas gravadas por Affleck, mas na sua aparição nos talk-shows (o momento com David Letterman é fabuloso) e como notícia nos telejornais (sérios ou cor-de-rosa).

E se o excessivo tempo do documentário por vezes faz soar o alarme de viagem ao ego de alguém, a verdade é que no fundo o filme não é só sobre Phoenix, mas de uma industria do entretenimento que se alimenta do que pode: do intimo ou do domínio comum. E por vezes é tão bárbaro nos ataques que ainda bem que tudo isto não passou de um show-off de um actor acima da média.

O Melhor: Phoenix em Letterman. Um clássico.
O Pior: Para o que tem de mostrar, ‘I’m Still Here’ é um documentário longo demais sobre uma brincadeira que, também, me parece ter sido mais comprida do que o devia

A Base: Apesar de excessivamente longo, ‘I’m Still here’ é uma boa crítica à industria do entretenimento, ao cinismo e às estrelas…6/10

Jorge Pereira

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