E mesmo que Mark Zuckerberg, director-executivo e co-fundador do site Facebook, onde a obra se baseia, diga que não vai ver o filme, ou que é ficção, a verdade é que ao contrário do que se esperava, a sua imagem não sai tão borrada quanto isso.
E tudo porque na realidade, com Severin ou não na foto de família, os créditos passam quase todos por Zuckerberg, um visionário que aproveitou uma ideia concreta (mas limitada) de uns colegas de faculdade e desenvolveu, linha de código a linha de código, uma rede social que ultrapassou facilmente os seus rivais, como o MySpace.
Houve roubo? Sim, certamente, tal como o Ikea fica com todos os direitos sobre as cadeiras que faz, não pagando royalities absolutamente nenhuns ao homem que inventou tal móvel. Aí, estou completamente de acordo com a personagem interpretada por Jessie Eisenberg, porque dizer que ele roubou a rede social a outras pessoas é o mesmo que dizer que Larry Page ou Sergey Brin roubaram a ideia dos motores de busca ao Yahoo ou até ao Sapo (nos tempos em que ainda este tinha sido criado na Universidade de Aveiro).
Posteriormente sim, houve uma má conduta de Zuckerberg com Eduardo Saverin, mas quem está do lado de quem desenvolve os sites sabe bem que de bestial a besta é um instante. Saverin queria publicidade à força, de maneira a cobrir as despesas que tinha tido até então com o site, mas o certo é que se em momentos chaves de crescimento entupissem a rede social com publicidade, os sites deixavam de ser interessantes e passavam a constar da lista de um pop-up blocker qualquer. O facebook tinha morrido antes de nascer, como aconteceu com muitos outros sites, que quando mal conduzidos são levados a descer muito no ranking das visitas (que o digam os motores de busca Altavista, ou Hotbot, para não falar do português Cusco – extinto por falta de publicidade/viabilidade económica – ou das também redes sociais Orkut e Hi5).
Mas deixando de lado a analise pessoal à personalidade das pessoas em cena, e tendo sempre em conta o carácter de ficção e entretenimento a que estamos perante. ‘The Social Network” é facilmente um dos melhores filmes do ano.
Primeiro, porque historicamente está muito bem datado. Depois porque em termos de acção é electrizante, querendo o espectador ver sempre o passo seguinte.
Finalmente, as suas personagens criam demasiadas sensações que nos provocam ternura, fascínio, raiva, ódio e até pena. Quando sentimentalmente entramos numa película, esta ganha mais força, desde que não caia em manipulações melodramáticas. E nesse aspecto, “The Social Network” é um grande filme, tremendamente bem balanceado.
O argumento de Aron Sorkin, real ou fictício (não me canso de referir isto) é muito bem conseguido, tapando quase todos os buracos e até desculpando as suas próprias especulações com a dúvida.
A realização de David Fincher acompanha perfeitamente o enredo e dá-lhe uma dinâmica excepcional, mantendo o espectador preso à acção, mesmo quando a narrativa vai à frente e atrás, pois há factos que já conhecemos. Resta agora perceber como e porquê aconteceram assim.
No elenco temos também boas prestações, destacando-se apenas Jessie Eisenberg, um jovem obcecado com uma espécie de aceitação social e reconhecimento, mas ao mesmo tempo profundamente ingénuo. Porém, era impossível prever a dimensão que a rede social iria ter, sabendo-se apenas que seria grande. Muito grande.
Com tudo isto, “The Social Network” acaba por ser um entretenimento fantástico, profundamente inspirador, quer criativamente, quer em termos de relações humanas.
Se estão à espera de uma espécie de “Shallow Grave” tecnológico, esqueçam. Eu pelo menos fiquei a admirar mais Zuckerberg que a detestá-lo.
A não perder
O Pior: No meio de um argumento tão blindado, soa demasiado simplista a forma como Eduardo Saverin se deixou levar quando assinou o primeiro contrato.
A Base: “The Social Network” acaba por ser um entretenimento fantástico, profundamente inspirador, quer criativamente, quer em termos de relações humanas…9/10

