‘Let Me In’ por José Pedro Lopes

(Fotos: Divulgação)

Depois de ‘Quarantine’ surgir menos de dois anos depois do espanhol (REC), é a altura de vermos uma versão americana do sueco ‘Let the Right One In’ feita também em velocidade relâmpago. Mas se a adaptação do filme de sustos de Jaume Balaguero era linear por natureza (já que o filme original também o era), a de ‘Let me In’ é no mínimo complexa: o original sueco é um filme com um cunho de autor muito forte e pormenores de realização brilhantes. Matt Reeves (‘Cloverfield’) alega estar a adaptar o livro de John Adjvide Lindqvistmas a verdade é que frequentemente espreita a versão de Thomas Alfredson na hora de comandar a câmara. Isto torna-se constrangedor pois ‘Let Me In’ é frequentemente um filme bem conseguido por si próprio…

Passado no início dos anos 80, ‘Let Me In’ conta a história de Owen, um rapaz de 12 anos que vive no Novo México. Esquálido e tímido, Owen é vítima de ‘bullying’ na escola e passa os seus serões a fantasiar com a sua vingança, enquanto brinca com uma faca no jardim do prédio onde vive. Numa dessas noites, ele conhece a pálida e misteriosa Abby, uma rapariga estranha que após uma noite de convívio se prontifica a avisá-lo que eles nunca poderão ser amigos. Owen estranha, mas depressa repara nos comportamentos estranhos do pai de Abby, que sai à noite e volta a altas horas. Com o evoluir dos dias, Owen acaba por ser apaixonar por Abby , a qual lhe revela não ser uma rapariga normal.

Os jovens talentos de Chloe Moretz (que já nos havia impressionado como Hitgirl em ‘Kick Ass’) e Kodi Smith-McPhee dão muita força a esta nova versão. Matt Reeves e a sua paixão pelos anos 80 ajuda a povoar o mundo secreto dos dois amantes do filme, e cria aqui uma história romântica que funciona, com apaixonados carismáticos que partilham momentos comoventes. As cenas entre os dois protagonistas são intensas dramaticamente, e o desfecho do filme tem mais força aqui que na versão sueca. Fica-nos mais clara a confusão pretendida: nunca vemos Abbie na recta final e nunca sabemos se a fotografia que tinha em sua casa a denunciava como algo mal intencionado (e Owen como uma vítima de um plano mais elaborado). E ficam-nos claros os sentimentos de alienação e pertença entre Abby e Owen.

Alguns momentos visuais do filme estão soberbos, como a sequência do segundo ataque num automóvel por parte do pai de Abby (uma sequência nova desta versão) ou os inúmeros planos passados no parque e na neve. Outro momento bem conseguido (melhor que no filme sueco) é a sequência quando o polícia (interpretado por Elias Koteas) entra no apartamento de Abbie, especificamente na sua casa de banho. A tensão criada aqui é fantástica.

No entanto, ‘Let Me In’ sofre do estigma do remake desnecessário. A grande maioria do filme é quase virtualmente igual ao original. Algumas coisas inclusive desaparecem: a cena dos gatos (um apontamento de terror brilhante do filme sueco) ou as dúvidas em torno da sexualidade de Abby (outro pormenor original) desaparecem por completa. Um crítico americano dizia que Reeves mentia quando dizia que adaptava o livro e não o filme sueco pois aqui contava ainda menos história que o filme anterior. Isto é verdade – apesar do drama de ‘Let me In’ ser mais bem estruturado, o filme é menos completo na narrativa e simplifica várias das suas complicações.

O debate em torno destes ‘remakes’ prender-se-á sempre a algumas questões complicadas. Vale a pena fazer um ‘remake’ dois anos depois do filme original, especialmente se este for já por si um filme quase perfeito? Não. É este ‘remake’ um mau filme por sim mesmo? Não. Vale a pena vê-lo? Aí é impossível responder com clareza. Se nunca viu o original, vale a pena ver se tiver como requisito ver um filme americano e for alérgico a cinema europeu (o que é um erro, mas infelizmente representa uma quota considerável dos espectadores). Senão veja o sueco, é um filme único e com um ambiente muito especial. Mas se viu o sueco, então não vale a pena ver este a não ser que o tenha adorado. Aí já recomendo espreitar este ‘Let Me In’, que funciona como uma revisão bastante apreciável da matéria dada. Como fã de ‘Let the Right One In’ fui ver este filme de Matt Reeves com um pé atrás, mas acabei por apreciar as diferenças e as semelhanças, até porque esta versão americana foi feita com muita qualidade e (algumas) melhorias.

 

O melhor: Chloe Moretz e Kodi Smith-McPhee estão brilhantes nos principais papeis.

O pior: Reeves devia ter arriscado muito mais e descolado do filme original.

A base: ‘Let Me In’ é um drama de terror com uma dupla de apaixonados carismáticos graças a dois excelentes actores… mas é uma cópia chapada de ‘Let the Right One In’. 7/10

 

José Pedro Lopes

 

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