
A sua vida é um tédio, pois no seu tempo livre a única coisa que faz é fechar-se numa solidão acompanhada pela televisão, ou palavras cruzadas, ou, em dias bons, a playstation.
Mas Jara parece estar enamorado por uma colega de trabalho com quem agora passa as noites através das câmaras de segurança do espaço. Aos poucos ele fica obstinado por Júlia, começando a organizar-se em torno das rotinas e do quotidiano desta.
Aqui o filme faz uma incursão no campo da obcessão, pois Jara já só pensa e começa a ter atitudes loucas em torno desta personagem com quem nunca falou.
Em muitos momentos dei por mim a revisitar ‘Play’, um filme da chilena Alicia Scherson que venceu uma das edições do IndieLisboa. Tal como em “Gigante”, aí havia uma personagem que ficava fascinada por outra e segui-a constantemente, sem nunca lhe dirigir a palavra. A diferença principal no estilo dos dois é que ‘Play’ era um trabalho realista mas que por vezes explodia visualmente e mostrava algo surreal – como as sequências em que é evocado o jogo “Street Fighter”.
Contrariamente, e apesar de o tom por vezes de aproximar muito, ‘Gigante’ segue uma linha muito naturalista e apresenta o tédio com longos segmentos de imagens em que nada acontece. Da mesma maneira, a timidez é apresentada em longas sequências em que esperamos que a personagem se decida e ganhe coragem, o que pode ser um verdadeiro exercício de testar as insónias.
É sempre complicado testar a solidão e a alienação social de um modo naturalista, pois o que é uma vida chata, pode-se transformar num filme chato, aborrecido e enfadonho. Em ‘Mundo Grúa’ de Pablo Trapero isso também acontecia a um desesperado desempregado. Mas ainda assim era um filme tremendamente interessante.
‘Gigante’ poderia até ter ganho mil prémios, mas no fundo demonstra diversas fragilidades e dramatizações ocas que não nos permitem qualquer proximidade aos seus intervenientes. Vai buscar inspirações ao (relativamente) recente cinema argentino (Trapero , Martel, Sorin) e a Kaurismaki, mas falta-lhe um real toque de génio para ultrapassar a inocuidade que no fundo é.
O Melhor: O actor principal, Horacio Camandule
O Pior: O problema não é o ritmo, é como se mostra esse ritmo.

