‘The Karate Kid (2010)’ por Jorge Pereira

(Fotos: Divulgação)

A versão de “Karate Kid” de 2010 é tão desnecessária como interessante. Primeiro porque qualquer clássico dos anos 80 que é ujeito a um remake é à partida olhado com estranheza e algum ódio por quem adorou o original. Depois, porque o primeiro filme tinha dois actores medianos, mas que criaram personagens icónicas na história da 7ªarte.

Imaginar o filho de Will Smith ou Jackie Chan como os substitutos de Daniel San (Ralph Macchio) e Mr Miyagi (Pat Morita),  à partida parecia a maior patetice do mundo. Mas o remake também o era,  por isso as expectativas apenas baixavam ainda mais. Talvez por isso tenha gostado desta nova versão, pelas baixas expectativa (ou nenhumas que tinha), mas isso é demasiado simplista para relatar as minhas emoções em relação a este reboot. Convenha-se que a história é fraca e banal. O original também o era. A verdade é que os sentimentos criados por um e por outro são muito semelhantes. Os bons ganham aos rufias, e a luta em busca da paz volta a triunfar sobre a luta sem misericórdia.

Em “Karate Kid 2010” seguimos Dre Parker (Jaden Smith), um miúdo que se vê obrigado a abandonar os amigos nos EUA e seguir com a mãe para China. A globalização das empresas assim o obriga. Apesar de todas as dificuldades iniciais  de adaptação ao país – para ele a China era toda “Velha” – e à língua (é hilariante ver a criança a tentar falar chinês), Dre rapidamente descobre, através de Mei Ying (Wenwen Han), que a China é um lugar onde pode ser feliz. Mas antes disso vem o ódio. Esse sentimento surge quando  Cheng (Zhenwei Wang), o brutamontes da escola decide fazer dele mais uma vítima de bulling. Será com a ajuda do mestre Han (Jackie Chan), que secretamente lhe ensinará a arte do Kung Fu, que Dre vai conseguir vencer o preconceito e ganhar o respeito dos colegas de escola, enquanto cada vez mais se
sente próximo de Mei Ying.

Esta nova versão não reimagina os pontos chave da história. Mais uma vez temos um jovem alienado socialmente num local novo para si que é vítima dos brutamontes locais. Mais uma vez esses rapazes são treinados por  um mestre sem escrúpulos que acha que os fracos não tem lugar na história e devem ser dizimados. Mais uma vez a jovem vitima de bullying vai encontrar num homem mais velho os ensinamentos de Kung-Fu e mais uma vez terá de competir num torneio e provar que merece o respeito de todos. Se formos a ver não há nada de novo na base do filme. Se pensarmos bem, ‘8 Mile’ com Eminem também é mais ou menos assim, só que os punhos são substituídos por batalhas vocais…

Este é um template básico do cinema de Hollywood. O jovem que necessita provar que merece o respeito. Mas o que realmente interessa é como tudo é mostrado. A reivenção deste filme vence ao impor as novas regras globalizantes da economia, em voltar a  frisar o problema do bullying (é uma questão intemporal) e na forma como qualquer pessoa possa ganhar o respeito de todos. Vencer, mas ser humilde. É nesta actualização e na escolha do local para as filmagens que a nova versão de “Karate Kid” domina a audiência. É nos pequenos detalhes, personagens multidimensionais e emoções envolvidas que o filme nos conquista.

No que toca a interpretações, Jaden Smith é inconstante mas eficaz na globalidade. Se no primeiro filme tínhamos de acompanhar Daniel San num perfil “coming of age story”, aqui temos um miúdo que se tem de habituar, completamente, a um mundo novo. Era mais difícil, sem

duvida, o seu papel. Já Jackie Chan demonstra ter nos olhos algo que nunca antes tinha visto em nenhum papel seu. Expressividade. Com isso ele consegue criar uma personagem martirizada pela vida com quem simpatizamos, temos pena, mas que tem a cabeça, as palavras e os ensinamentos no sitio. Os momentos com Dre serão mágicos para a nova geração de espectadores e nostálgicos para os conhecedores da saga.

Depois há os detalhes. Como lidar com cenas que marcam no cinema? Como lidar com Mr Miyagi a apanhar moscas com pauzinhos chineses? Ou com o “Wax on, Wax, off”? E com a cena final da luta? Imitar? Esquecer? Virar a página?

Nada disso seria completamente satisfatório, o certo é que com uma bela dose de humor a primeira cena citada foi ultrapassada facilmente e com grande estilo. O Wax on, Wax Off é resolvido como se de um genérico (medicamento) se tratasse. Substitui-se o limpar e encerar por pôr e tirar um casaco. Simples, mas eficaz. Já a cena final é tão impactante como a original. (é um misto do que Bruce Lee fez em “Dragão Ataca” com Jet Li em ‘Romeo Must Die’.

Por esta razões, ‘Karate Kid 2010” é um filme bem interessante. Capaz de captar novas audiências e satisfazer os mais acérrimos fãs do filme original. Até a música, de grande impacto no primeiro filme, nos fica na memória neste novo filme.

E com isto “Karate Kid” acerta mais do que falha…

O Melhor: A replicação da cena das moscas e dos pauzinhos. Hilariante De uma forma simplista. A luta de Jackie Chan com os miúdos faz
lembrar “Rumble in Bronx”.

O Pior: Talvez demasiado longo, mas mesmo assim faltou algo no fim

A Base: A versão de “Karate Kid” de 2010 é tão desnecessária como interessante. 6/10

Jorge Pereira

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