A antecipação era muita em torno da abertura do festival ‘Curtas de Vila do Conde’, onde iria estrear o filme inglês ‘Nowhere Boy’, baseado na juventude de John Lennon e um dos nomeados para os BAFTA de 2009.
Liverpool 1955: um adolescente de 15 anos perturbado e inteligente, ávido de novas experiências. Numa família cheia de segredos, duas mulheres extraordinárias batem-se pela sua atenção: Mimi, a tia rígida e conservadora que o criou, e Julia, a mãe pródiga. Ansiando por uma família normal, John refugia-se no novo e excitante mundo do rock n’ roll onde o seu talento encontra no jovem Paul McCartney uma alma gémea. Mas no preciso momento que começa a sua nova vida, a tragédia surge. Mas com tenacidade, John consegue encontrar a sua própria voz – e um ícone nasce para o mundo.
Da estreia nas longas-metragens de Sam Taylor-Wood (fotógrafa e artista plástica) esperar-se-ia um filme mais artístico e mais original, especialmente considerando tratar-se de um biópico do mais brilhante artista de Inglaterra: John Lennon, o mentor dos Beatles. Maior ainda seria a expectativa se considerar-mos que o argumentista é Matt Greenhalgh, o mesmo de ‘Control’, a aclamada adaptação ao cinema da vida curta de Ian Curtis dos assombrados Joy Division.
‘Nowhere Boy’ deliberadamente contorna ser um filme sobre os Beatles ao adaptar a juventude de Lennon antes da adopção do nome derradeiro dos que eram os The Quarrymen. Apesar de ambiciosa esta abordagem, apenas faz com que um filme sobre Lennon consiga ser um drama familiar com uma abordagem quase televisiva, sem a magia nem a originalidade do artista em que se baseia. Sendo também um filme dos Beatles sem Beatles, ‘Across the Universe’ era uma obra original e com um toque da autor próprio, que respirava o imaginário do grupo de Liverpool. ‘Nowhere Boy’ fica-se pelo drama adolescente sobre um rapaz dividido entre duas mães e a vontade de fugir de um meio pequeno.
Isto poderia funcionar mas o efeito dramático sai diminuído, acima de tudo, por um casting mal conseguido. Se a geralmente insossa Kristin Scott Thomas ainda surpreende com uma interpretação carismática (mesmo que genérica), Aaron Johnson (de ‘Kick Ass’) é um Lennon sem vida em sem charme no grande ecrã. Notas negativas ainda para Thomas Sangster – erro de casting total como Paul McCartney – e Anne-Marie Duff que não consegue dar a volta a uma Julia Lennon muito mal escrita.
A música tem inspirado o cinema recentemente. “I’m not There” (baseado em Bob Dylan) e ‘Across the Universe” (inspirado pelos Beatles) eram filmes cativantes e cheios de originalidade vinda das suas inspirações musicais. ‘Control’ era um biópico intenso e artísticamente valioso. Já não há espaço e acima de tudo paciência para adaptações rotineiras e banais como ‘Nowhere Boy’.
O melhor: A Mimi de Kristin Scott Thomas e a primeira performance dos Quarrymen.
O pior: A proeza de se fazer um filme sobre John Lennon chato e convencional.
A base: Submergido em banalidade, ‘Nowhere Boy’ não respira nem Lennon nem a sua música, e sai atraiçoado por um elenco tão fraco como a sua ambição. 4/10
José Pedro Lopes

